ANTEROS THE INDUCEMENT
JOHANN
WOLFF REINHARDT



Livro I


Gostava das tardes de inverno, porque onde moravam nunca era inverno de verdade e a temperatura jamais baixava menos que 16 graus, o que dava as tardes um clima confortável, sem o calor excessivo e ardente da primavera e do verão.

A mãe os apanhava na escolinha no fim da tarde e caminhava de mãos dadas com ele e a irmã gêmea, conversando sobre o dia no lugar de desenhos, onde trabalhava, sobre a comida diferente que ia testar aquela noite - o que nem sempre era algo tão bom de se provar, mas ela se esforçava.

No meio do caminho de volta, atravessavam a rua só pra comprar aquele pastel de carne que a irmã adorava e o de palmito que ele não escondia apreciar também, sentavam na mesinha do lado de dentro ou de fora, dependia da temperatura, da lanchonete do senhor bigodudo simpático e sua esposa, e engoliam a massa frita e quentinha com um copinho proporcional ao tamanho dos dois, daquele doce, porém nada enjoativo, caldo de cana.

De mão dadas novamente, depois de limpar cuidadosamente com lenços umidecidos cheirando a camomila, suas bochechas cheias de resquicios da guloseima, a mãe seguia novamente o caminho de casa.

A casa era um pequeno apartamento, dois quartos e pouco mais de cinquenta metros quadrados, mas era o reino dos três e desde miuda idade ele se sentida o guardião do castelo.

O diminuto protetor das mulheres que moravam com ele e deixava isso bem claro as vistas de qualquer visitante, colando nas pernas da mãe e de olhos aguçados na irmã, sentada alheia vendo tv, ou no chão com seus brinquedos. Não era uma criança antipática, dessas que faz careta e mostra a lingua a toa, apenas observador e introspectivo com estranhos demais... O que era particularmente curioso é que geralmente os visitantes sabiam respeitar aquele mini rapaz, de olhar sério e não disposto a muito diálogo com os de pouco intimidade.

A mãe costumava dizer que ele herdara a 'simpatia' paterna. A amiga exótica da mãe, que ele nunca entendeu direito se tratar de uma tia, um tio ou as duas coisas, dizia que ele não herdara apenas a tal 'simpatia'...

Mas toda essa reserva era somente pra quem não conhecia, porque com os mais intimos, o pequeno se deixava agradar e agradava, com discretos gestos de carinho e sorrisos sinceros e contagiantes.

O melhor do dia todo era o final dele, quando depois de um banho de água fria, que graças ao calor estúpido da cidade se tornava morna, os cabelos ainda umidos e espetados eram cuidadosamente alinhados pela mãe, mesmo que quando secassem novamente se empinassem rumo ao céu. Então ela servia a ele e a irmã gêmea um suco frio, não gelado, e ligava o ar condicionado pra refrescar o quarto no verão, ou apenas abria a porta que dava pra varanda no inverno, e se deitava com os dois para um cochilo longo, tranquilo e preguiçoso. Esse era o grande pequeno mundo dos três habitantes dos 50 metros quadrados.

Foi todo o seu mundo durante a primeira infância.



Livro II

A mãe pareceu distânte logo após a pergunta do pequeno, como se procurando uma melhor resposta para a questão tão de repente, sem aviso. O garotinho esperou alguns segundos, encarando a mãe curioso, com expectaiva discreta. Depois de quase um minuto de silênco, enquanto ela olhava longe, ajeitando cabelo atrás da orelha eensaiando uma resposta, ele suspirou cansado de esperar e repetiu a pergunta:

-- Mamaim... cuandu eu vai vê u papaim di eu?

A mãe sorriu pouco, ele reconhecia o sorriso triste quando a resposta não seria boa, acompanhou com os olhos cada gesto dela, desde a mordida do lábio até os dedos mexendo nervosos sobre o colo e por fim, um afago carinhoso em seus cabelo finos e arrepiados:

-- Ele vem... quando puder... Ele... quer vir, mas não pode.

O pequeno ouvia bastante as palavras 'não pode'. Geralmente eram pra irmã depois de arrumar alguma briga na creche ou sempre que dava um jeito de se sujar após o banho. Pra ele o 'não pode' era quando resolvia trepar em algum móvel, o que honestamente, fazia com muita frequência. Ou quando se escondia e deixava a mãe desesperada procurando em todos os lugares, reclamando sobre como uma criança conseguia sumir dentro de 50 metros! Claro que o garotinho não entendia nada disso, apenas acenava que sim, quando exausta e aliviada, a mãe dizia pra ele que 'não podia se esconder assim', logo após encontrá-lo dentro de alguma ármario.

-- Naum podi?
-- E mexeu a cabeça, negando junto com a frase.

-- Não pode...
-- Ela afirmou, ainda afagando com um sorriso triste, tentando responder aquela pergunta tão repentina.

Às vezes o 'não pode' da mãe vinha com o motivo de suas saídas noturnas, ou com a razão de não dormirem até tarde nem passearem de manhã durante os dias de semana: o trabalho. Ele coçou a orelha, como fazia quando estava acanhado com algum assunto.

-- Naum podi qui... qui eli tabaia...?

A mãe suspirou, aliviada por ele ter arrumado uma razão mais rápido ou convincente que ela, afirmou num movimento de cabeça, devagar:

-- É... ele trabalha... Por isso ainda não veio. Nem o pai da sua irmã... eles são ocupados, mas quando der, vão visitar vocês, tá?

Ele concordou, pensativo. A mãe olhou pras roupas sobre a cama de casal, voltando a dobrá-las. O pequeno voltou a coçar a orelha, olhando pra fora. Estava escurecendo e a noite ela sempre saia pra trabalhar. Os gêmeos gostavam de ficar com a tia/tio, mas sentiam falta de alguma coisa que ele só se deu conta do que era naquele dia de manhã, na crechê, quando uma das monitoras distribuiu algumas folhas e explicou que eles deviam fazer desenhos para dar de presente pros pais, porque havia um dia no ano só pros pais.

Então, se havia um dia especial pros pais, como havia pras mães, pais eram uma coisa que toda criança devia ter, não? A sua lógica infantil não foi assim tão óbvia ou bem estruturada em sua cabecinha de dois anos, mas estava lá... onde passou a tarde toda. Preferiu não perguntar nada pra monitora, porque viu a briga que a irmã arranjou com uma amiguinha que implicou com ela:

-- Ela naum pudia tê fólia, ela naum teim um papaim.

Pronto, lá ia a irmã rosnando e voando sobre a coleguinha, que guinchava apavorada com os puxões de cabelo e chutes, enquanto a irmã gritava rouca:

-- Eu tenhu um papaim sim, sua feiosa! Todu mundu teim um papaim!!

O garotinho não falou nada, só observou a monitora separar a briga, a irmã chorosa e com bico, descabelada sendo levada pra monitoria. O vai e vem até a mãe ir apanhá-los e levá-los de volta pra casa. Quieta, apenas confortanto a gêmea, magoada. Preferia não dar mais trabalho pra mãe naquela hora, acompanhou tudo calado, pensativo.

Mas aquele pensamento ficou feito um bichinho colado em sua cabecinha, picando e mordendo, querendo uma resposta... então, depois da irmã finalmente pegar no sono agarrada a foto do pai, após a mãe convence-la de que não havia nada de errado em ter o pai longe, quis saber sobre o seu pai. Onde ele estava? Quando iria conhecê-lo de verdade?

-- Eu podi fala cum eli nu foni? -- Porque sabia que quando as pessoas estavam longe, podiam falar com elas pelo telefone. A mãe sempre fazia isso. Até a comida podia vir pelo telefone, mas ela aparecia na porta...

A mãe suspirou devagar e olhou pra ele, mais uma vez uma pergunta dificil. Dessa vez se sentou e o pegou no colo e ele sabia que não ia gostar da resposta, porque o colo era o carinho final quando a mãe não tinha mais armas para lutar contra qualquer tristeza deles:

-- Não dá pra ligar... porque a mamãe não tem o telefone... e ele mora muito longe. Não dá pra ir andando, nem de carro e nem de ônibus. Só da pra ir de avião.

Ele fez que sim, porque nenhuma das perguntas foi respondida de uma forma que o colocasse mais perto do pai.


Se calou e deixou que ela o afagasse até que o sono chegasse o bichinho que o perturbava dormisse junto...



Livro III


Ficou prestando atenção quando a mãe pegou o telefone aquela noite. Quandoficava em casa a noite sempre comiam pizza e ela dizia que era a noite de 'folga'. Ele e a irmã conheciam como a noite de ficar em casa, fazer bagunça, dançar e comer pizza.

Sentado no sofá, viu a mãe apertar uns botões, esperar e falar com a pessoa da pizza. A pizza sempre chegava depois de um tempão! Na verdade, trinta minutos, mas no tempo de criança era uma eternidade!

Bom... se mesmo demorando tanto a pizza chegava, talvez se ele conseguisse usar o telefone outras coisas, ou pessoas, podiam bater na porta.

O pequeno desceu do sofá sem chamar atenção, discreto e silencioso, deixando a irmã pulando em volta da mãe, pedindo tudo o que existia - ou não - de ingredientes na pizza daquela noite. O garotinho entrou no quarto que dividia com a irmã e se enfiou embaixo da cama, puxando todos os brinquedos que costumavam deixar alí quando a mãe mandava que os guardassem.

Puxou o fio enrolado do telefone de plástico, com focinho de cachorro, e o trouxe pra sí, sentou com o brinquedo entre as pernas nuas por culpa do calor e ficou encarando o fone na mão. Viu a mãe fazer aquilo muitas vezes, não só no dia da pizza, então não devia ser dificil.

A mãe se deu conta de que faltava um pedacinho de gente na sala quando foi perguntar pro pequeno o que ele queria em sua pizza, depois de convencer a gêmea de que não podiam colocar amendoim na pizza de calabresa. Ainda com o telefone na mão o procurou na cozinha e no quarto de casal, mas acabou encontrando a porta do quarto dos miudos entreaberta e foi olhar o que ele fazia sozinho lá dentro.

Ouviu a voz baixa e fininha do pequeno, conversando no telefone de brinquedo. Perguntava como o pai era, como era o lugar onde morava, se estava frio e contava que aquele era o dia da pizza, então a mãe estava em casa. Mas que ela não podia falar porque tinha que chamar a comida pelo outro telefone, o de gente grande...

A mãe ficou parada na porta, sentindo o vazio no peito causado pela incapacidade de dar os dois o que eles necessitavam, como qualquer criança, em qualquer idade. Mesmo se dedicasse todo o tempo, se os cobrisse de carinho e se dividisse em mil para suprir tudo o que desejavam ou precisavam... jamais poderia dar o que queriam naquele momento. Os pais.

E não conseguia explicar pra eles o motivo, quando nem ela compreendia exatamente porque essa distância, mais que geográfica, existia.

A mulher suspirou e perguntou baixo para não assustar o garotinho:

-- Com quem... você tá falando?

E mesmo tomando todo o cuidado o assustou, e no susto ele encolheu o ombro e olhou arregalado pra ela, respondendo com ar de quem foi pego fazendo algo errado:

-- Cum nada, mamaim... Eu tá... tá... -- Coçou a orelha -- Eu tá... bincandu...

Ela fez que sim e foi até ele, pegou no colo e abraçou apertado. Não podia deixa-lo ainda mais sem graça... conhecia o orgulhinho que existia dentro dele, uma das muitas coisas que o pai deixara ali dentro.

O garotinho ouviu a mãe soluçar e então entendeu que ela estava triste e que talvez... sempre ficasse triste como eles, porque também estava sozinha sem o pai. Afagou as costas dela, com os dedos esticados pra alcançar mais, abraçado:

-- Tá baum, mamaim... naum chora naum... eu vai faizi um viaum gandi i noisi vê u papaim...

Quando a mãe fez que sim, concordando, jamais imaginou que ele estava mesmo falando sério sobre construir um avião...


...Ela percebeu alguns dias depois, quando o pequeno adquiriu o mau hábito de desmontar os aparelhos eletrônicos da casa e esconder as peças debaixo da cama, junto com o telefone de brinquedo. Tudo bem, ela pensou finalmente, se é disso que ele precisa pra estar junto do pai, pode 'construir o seu avião'.


Pelo menos o garotinho, que não possuia nem mesmo uma fotografia do pai, tinha pra si esse conforto...



* * *



‘I’m a question to the world
Not an answer to be heard
Or a moment that's held in your arms

And what do you think you'd ever say
I won't listen anyway
You don't know me
And I'll never be what you want me to be

And what do you think you'd understand
I'm a boy - No, I'm a man
You can't take me and throw me away
And how can you learn what's never shown
Yeah you stand here on your own
They don't know me
'Cause I'm not here

And I want a moment to be real
Wanna touch things I don't feel
Wanna hold on and feel I belong
And how can the world want me to change
They're the ones that stay the same
They don't know me
'Cause I'm not here

And you see the things they never see
All you wanted I could be
Now you know me and I'm not afraid

And I wanna tell you who I am
Can you help me be a man
They can't break me
As long as I know who I am

They can't tell me who to be
'Cause I'm not what they see
Yeah, the world is still sleepin'
While I keep on dreamin' for me
And their words are just whispers and lies
That I'll never believe

And I want a moment to be real
Wanna touch things I don't feel
Wanna hold on and feel I belong
And how can they say I'll never change
They're the ones that stay the same
I'm the one now
'Cause I'm still here

I'm the one
'Cause I'm still here

...I'm still here...’*


*(I'm Still Here – Gogo Dolls)



CARACTERISTICAS

Modelo: YoSD Ayumu
Loja: Volks

Nome: Johann Wolff Reinhardt
Apelido: Pequeno, Trocinho
Idade: 2 anos e meio
Altura: pequeno :'3
Data de Nasc: 20/08
Olhos: Azuis
Cabelos: Louros
Tatuagens (presentes ou futuras): ...

Uma pessoa:
Mamain, papain, papain, Any
Um sonho: ...
Um desejo: ....
Um sentimento: ...
Uma frase: ...




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