ALEXIS REINHARDT


Nome Completo: Alexis Reinhardt
Apelido: Alex, Lexis
Nascimento: 27 de Dezembro de 1915
Altura: 1,85cm
Signo: Capricórnio
Local de nascimento: Frankfurt am Main, Alemanha
Raça: Humano
Sexo: Masculino

Personalidade: Anti-social, ranzinza e grosso. Alexis não costuma utilizar a pastilha social quando algo o desagrada, dizendo coisas que podem ser até ofensivas para quem as ouve. Não tem medo de expressar sua opinião de maneira até agressiva ou verbalizar algo com o qual não concorda ou acha bobagem – o que acontece mais freqüentemente que para uma pessoa normal. Está quase constantemente resmungando e incomodado com alguma coisa, por menor que ela seja. Sua paciência se esgota em questão de segundos e, quando não resolve o assunto com uma resposta desagradável, prefere calar-se e retirar-se do local. Quando jovem, Alexis costumava demonstrar mais energia, ambição e menos antipatia, podendo soar até mesmo ligeiramente prepotente. No entanto, a idade deixou-o mais amargo e rabugento, e Alexis, que já quando jovem evitava lugares abarrotados e obrigações sociais supérfluas, cada vez mais reservou-se a sua própria casa sem muito contato com pessoas que não fossem a ele muito próximas.

Não há nada que Alexis odeie mais do que hipocrisia. Criou preconceito por lições de moral após sempre ver que quem as dá dificilmente as segue, e, portanto, acabou criando seu próprio grupo fixo de valores do qual jamais desvia. É incapaz de mentir e dificilmente se abre para alguém antes de ter total confiança na pessoa, o que leva um longo período de tempo e qualquer escorregão pode fazer com que Alexis se recuse a partilhar de sua intimidade para sempre.

Apesar de ter dificuldade em demonstrar carinho, uma vez que se apega a alguém é quando passa a demonstrar mais gentileza e um pouco mais de ‘humanidade’ – termo que ele não usaria como um elogio, devido a sua visão pessimista sobre a maioria das pessoas.


***

ALEXIS, 2 ANOS

        Apenas brincando no quintal de sua casa, fazia descobertas que o deixavam distraído por horas a fim. Foi o primeiro verão no qual ele correu sozinho sobre a grama, sustentado por suas pequenas pernas de criança, perseguindo esquilos até que eles subissem nas árvores e sumissem por entre as folhas. Alexis os olhava se moverem com uma fascinação que fazia sua mãe, que o observava da cadeira do quintal, sorrir e levantar-se para ir até ele e afagar-lhe os cabelos quase brancos e caiam sobre seu rosto. Ele então agarrava suas saias para que ela o abraçasse e o pegasse no colo, o que ela completava com um beijo em seu rosto. Aquela era sua felicidade máxima, a coisa que ele mais gostava em seus dias, com a pessoa que era a mais importante de todas para ele.

        A semelhança entre mãe e filho era notável; os cabelos dela eram de um louro tão claro quanto o dele, e os olhos, a cor do azul celeste. Eles tinham o mesmo olhar, os mesmo lábios, a mesma pele, e estavam sempre juntos. Alexis nunca fora de se misturar com outras crianças, e detestava apenas pensar em ser deixado em uma dessas creches onde o caos corria solto e o barulho não cessava nunca. Seu alivio era a mãe trabalhar apenas durante a manhã, enquanto ele ainda dormia... e se acordasse, apenas mantinha-se na cama até que ela voltasse. Era uma criança comportada, tranqüila; e adorava ouvir tais elogios. Nunca fora inclinado à bagunças, ou a melecar-se com comida, ou a constantemente exigir doces. Gostava de ficar em seu quarto, na sala da casa, na cozinha, onde pudesse acompanhar a mãe. Vez ou outra recebiam alguma visita e, caso houvesse alguma criança próxima de sua idade, pediam que Alexis brincasse junto desta. Não era algo que lhe proporcionava grande empolgação, mas sabia que a mãe ficaria feliz se o fizesse. Não costumava ser um grande desafio. O pior que poderia acontecer era, se a outra criança fosse do tipo barulhento, ela mesma chatear-se com o jeito de brincar de Alexis ou este simplesmente cansar-se e pedir para que a mãe o levasse para a cama. Não insistiria em seu modo de brincar se poderia simplesmente desviar dos aborrecimentos sem ter de lidar com outros garotos e ir fazer suas coisas sozinho.

        Algumas vezes divertia-se ao rabiscar folhas de papel que a mãe lhe entregava, apesar de nunca ter se esforçado demais para aprender tal arte. Gostava de seus pequenos blocos de madeira, com os quais podia montar casas e cidades; tinha também pequenos carrinhos em miniatura que havia ganhado de presente de seu pai, que havia passado os brinquedos de sua família para o pequeno. Não possuía uma grande variedade de coisas, mas era, para ele, o suficiente para divertir-se sozinho. Seu grande desejo, porém, voltava a sua mente sempre que saia com a mãe para onde quer que fosse.

        Perto de sua casa, a caminho da cidade, passavam sempre pela vitrine de uma loja de brinquedos, onde um pequeno trem de fricção estava sempre a andar por seus trilhos. Aquilo fazia os pequenos olhos azuis de Alexis brilharem como raramente faziam. Os trilhos eram montados sobre uma grande mesa de madeira que exibia todo o cenário em miniatura. O trem parava em pequenas estações de madeira pintadas, passava por pontes decoradas como se fossem de pedra, e até por pequenas cidades constituídas por apenas três ou quatro casas tão minuciosamente construídas, que se alguém olhasse o cenário agachando-se ao nível da mesa, podia perfeitamente pensar que aquilo tudo era real. O trem era de metal pintado, com um detalhamento e um brilho impressionantes. Todos os dias que saíam, Alexis pedia à mãe que o deixasse observar a vitrine apenas por alguns minutos.

        Um dia havia visto uma criança e seu pai saindo da loja com uma caixa que tinha a foto daquele mesmo trem nela impressa. Sua curiosidade levou-o a perguntar para a mãe se poderiam levar um deles para casa e montá-lo em seu quarto... e esse foi o dia que entendeu que não poderia ‘comprar’ um daqueles, como a mãe lhe havia explicado.

        -O trem custa muito dinheiro, querido. Seu pai trabalha muito, mas ainda não podemos te dar esse de presente... não agora...

        -Dinheiro? – o conceito ainda lhe era estranho. – Onde acho dinheiro? Eu procuro!

        A mãe sorriu-lhe tristemente e afagou seus cabelos.

        -Não se pode achar, Alexis. Tem que trabalhar e ganhar...

        -Eu trabalho. – respondeu ele, mesmo sem saber o que isso significava ao certo. – É o que o papai faz?

        -Você ainda é pequeno para trabalhar. – ela sorriu e pegou-o no colo. – Assim que conseguirmos, vamos tentar te dar o trem de brinquedo, tá...?
Alexis esfregou as mãos e passou os curtos dedos pela franja.

        -Tá... – respondeu cautelosamente, perguntando-se se havia feito algo errado em pedir o trem. Quis perguntar porque o outro garoto poderia tê-lo... mas talvez fosse melhor ficar calado e aproveitar o carinho da mãe.

        Alguns dias depois, tomou coragem de perguntar ao pai, antes de dormir, porque precisavam de dinheiro para comprar o trem de brinquedo e como aquele garoto havia conseguido. A resposta fora um tanto difícil de compreender. O pai era um homem alto, de cabelos cor de areia que rareavam mais perto de sua testa. Tinha um rosto agradável, de lábios finos e nariz bem formado – talvez um tanto avantajado, mas em harmonia com o resto de sua face, e olhos azuis acinzentados que se apertavam quando ele sorria. Era carinhoso com o filho, mas muitas vezes tinha dificuldades em tentar explicar algo do mundo adulto para que uma criança de três anos pudesse entender... e acabava usando palavras que a Alexis não faziam muito sentido. O que o pequeno havia conseguido entender era que o garoto que comprara o trem era ‘rico’, e o pai dele tinha um trabalho que lhe dava mais dinheiro.

        -E o papai não ganha trabalho com mais dinheiro? – perguntou ele em toda sua inocência infantil.

        -Não ainda. – sorriu-lhe e afagou-lhe a cabeça. –Mas quem sabe... – soltou um suspiro, enquanto Alexis o encarava, confuso. No entanto, a pequena fagulha de esperança pelo trem mantinha-se acesa simplesmente por não ter recebido uma recusa definitiva, e ele sorriu.

        -Não precisa agora. Eu gosto de ver na loja. – respondeu, e abraçou o pai da forma que conseguia, em seguida escorregando de seu colo e sentando no chão com seus carrinhos antigos. Pouco depois, a mãe pegou-o no colo e levou-o para a cama enquanto ele quase dormia em seus braços, exausto. Como todas as noites, ela deu-lhe banho, afagou seus cabelos, cobriu-o e cantou para ele, carinhosamente, enquanto ele caía em seu pesado sono de criança.

***



ALEXIS, 24 ANOS



        A reunião havia corrido como esperado, sem grandes discussões entre os oficiais. O Führer havia mandado apenas um representante, pois sua presença não era considerada necessária para algo que não envolvesse apenas os homens do mais alto escalão. E muito menos em uma reunião que contava com a participação de alguns oficiais novatos, ou alguns aspirantes a promoções. Aquela missão já estava decidida e assinada; a única coisa que precisava ser feita era distribuir as instruções para os envolvidos.

        Ele levantou-se o mais discretamente possível, e vestiu o longo casaco que estava pendurado em sua cadeira. Pegou seu quepe de cima da mesa, e colocou sobre seus cabelos quase brancos que caíam lisos sobre seus ombros. Ao contrário da grande maioria dos oficiais, ele preferia deixá-los longos e relativamente desarrumados, em comparação aos penteados excessivamente formais dos outros. Como seus fios eram bastante finos, ele não precisava fazer um grande esforço para deixá-los no lugar; e isso em nada afetava a impressão que ele passava aos outros. Seu porte já era suficientemente apropriado, junto com as características do seu rosto. Seu rosto era forte, jovem, de expressão severa. Seus olhos eram expressivos e contornados por finos cílios claros, abundantes porém quase imperceptíveis, e encimados por sobrancelhas louras que subiam levemente curvadas, numa expressão de seriedade que bastava que ele franzisse o cenho levemente para mostrar o maior desprezo da face da terra. Seu nariz descia com a ponte reta de maneira elegante, e terminava pouco acima dos lábios que pareciam dificilmente capazes de esboçar um sorriso sincero. O uniforme caia perfeitamente sobre seu corpo forte, porém elegante e esguio. Ele tinha o torso bem esculpido e as pernas longas, atraente de um jeito maduro, apesar de ser provavelmente o mais jovem do salão.

        Achou apropriado deixar os oficiais de patentes mais altas saírem primeiro. Colocou-se do lado da porta, e apenas saiu quando sentiu que estava a uma distância segura que pudesse evitar aquelas entediantes conversas pós-reuniões. Ele sabia seguir as convenções sociais, e era habilidoso a ponto de saber mudar o jeito de seu discurso dependendo da pessoa a quem dirigia a palavra; mas estava simplesmente cansado naquele dia. Não precisava de ninguém repetindo tudo o que ele já sabia, todas as ideologias pelas quais lutavam, ou fazendo piadinhas de humor negro. Ele sabia conversar, mas não era algo que lhe trazia muito prazer.

        Quando finalmente pensou estar sozinho, saiu do salão e andou pelo corredor em direção à saída. Seus passos eram rápidos e pesados, mas nem mesmo ele sabia se havia alguma coisa que queria fazer naquele final de tarde. No entanto, fora rapidamente interrompido em seu caminho.

        -Reinhardt! – Gritou uma voz do fundo do corredor. Aparentemente, ele não havia prestado atenção o suficiente nas pessoas que saíam do salão e havia permitido que uma delas ficasse para aproximar-se por suas costas – que aborrecimento. Ele demorou-se um pouco para virar-se, após um suspiro longo. Tirou o quepe por cortesia, bagunçando um pouco os cabelos, e cumprimentou aquele que o chamava educadamente. Levantou o braço com a mão espalmada e os dedos unidos, como de costume, e manteve o semblante sério e o tronco reto. Já não precisava mais pensar para fazer tal gesto; havia se acostumado apropriadamente com a tradição.

        -Gauleiter Kaufmann. Como posso ajudá-lo? – disse ele, encarando aquele homem que se aproximava a passos rápidos, de porte grandioso e postura impecável. Seus olhos demonstravam que ele não tinha medo de nada, e que sua auto-confiança era inquebrável. Possuía os cabelos penteados para trás, sem um fio sequer fora do lugar, e seu uniforme não possuía o menor indício de qualquer sujeira. Kaufmann colocou o braço ao redor dos ombros do outro, e sorriu.

        -Não é necessária tamanha formalidade agora, Alexis. – disse ele, assim que viu-se longe da porta da sala onde uma reunião havia acabado de se encerrar. – Pode me chamar de Ernhard; logo seremos homens de mesma patente. O Führer ficou muito satisfeito com o seu trabalho; aposto que ele logo recomendará a Himmler que o promova a Obergruppenführer. Apenas dê o seu melhor na Polônia, e lhe garanto o título.

        Alexis sorriu nervosamente enquanto o homem terminava sua fala e batia de leve em suas costas. Ele não gostava de contato físico, especialmente quando era alguém que ele não havia permitido invadir seu espaço pessoal. Mas precisava manter a pose num lugar como aquele, por ser um dos mais jovens – deveria demonstrar respeito e, conseqüentemente, receber respeito; e Kaufmann era um dos poucos homens que ele achava merecedor de sua admiração. Todos diziam que ambos eram semelhantes em personalidade, apesar de Alexis achá-lo um tanto eloqüente demais.

        -Espero que Heydrich e Müller façam o trabalho direito. – murmurou Alexis, mantendo um tom que não parecesse demasiadamente desrespeitoso. – Já é quase hora, e devo ter certeza de que a prontidão de minhas tropas não será desperdiçada.

        -Perfeitamente. Não há motivos para se preocupar.– respondeu Kaufmann, parecendo um tanto ansioso demais. – O próprio Reichsführer Himmler irá supervisionar a operação. E depois disso, apenas dê o seu melhor e tudo sairá bem.

        -Muito obrigado, Herr Gauleiter Kaufmann. Grato por sua consideração. Mas peço perdão, preciso retirar-me... um compromisso me aguarda. – disse Alexis, com pouca emoção em sua voz. Não que fosse mentira; mas o que ele mais queria naquele momento era encontrar-se sozinho novamente.

        Kaufmann mostrou em seu rosto uma expressão de insatisfação somente por alguns segundos – ela logo transformou-se num sorriso um tanto cruel, e ele apenas colocou as mãos para o alto, rindo.

        -Entendo. Hoje é dia de limpeza, não é? Ouvi falar que o Piorkowsky estava precisando de uma ajuda. Boa sorte com o trabalho.

        -Sim. Ele acabou recebendo mais carga do que o esperado. Um trabalho inconveniente, devo dizer. – Alexis deu de ombros, sarcástico, e suspirou ironicamente. Apesar de o senso comum considerar aquele trabalho um tanto desumano, era uma das poucas coisas que o fazia sentir-se satisfeito. E ele sabia que não era o único a pensar daquela maneira.

        -Entendo. Então, até logo. Te vejo na nossa Polônia ocupada.

        Alexis apenas levantou o braço novamente como sinal de respeito, enquanto o outro tomava seu caminho e acenava de costas. Colocou o quepe de volta, e saiu a passos rápidos do longo salão em cujas paredes penduravam-se grandes estandartes vermelhos com a suástica negra em seu centro. Sempre havia achado que as paredes daquele lugar eram altas demais; mas não tinha a menor vontade de expor sua opinião e duvidar das idéias arquitetônicas do Führer. O local da reunião era uma construção nos arredores de Munique, que apenas havia sido adaptado para a estética ideologizada. Ele sempre se perguntava qual era a necessidade das colunas em cada fachada, mas, no final, deixava de se importar rapidamente. Saiu do prédio, e foi até o carro que o esperava para levá-lo até seu destino. Era o final do verão, mas estava frio o suficiente para que ele mantivesse o casaco. O vento batia contra o seu rosto, e o sol pouco fazia para aquecê-lo. Ele entrou no veículo, e deu a ordem ao motorista.

        -Para Dachau. Rápido.

        Em alguns minutos, após Alexis encarar a paisagem um tanto entediado, o carro parou na frente de um grande portão de concreto e ferro encimado pela águia símbolo do Reich, que segurava a suástica em suas garras. Dois soldados se aproximaram, e saudaram Alexis educadamente conforme ele descia. Ele retribuiu a saudação de maneira fria, e apenas seguiu um dos soldados pela pequena porta lateral, que o levaria até seu destino final.

        Entraram numa sala com uma grande mesa de madeira, encimada por uma lâmpada um tanto empoeirada e um telefone, e com milhares de arquivos espalhados por toda parte. Por detrás dos papéis, via-se um vulto que, com a entrada de Alexis, levantou-se rapidamente de sua cadeira e foi em sua direção. Era um homem de porte mediano, cuja testa quase encobria seus olhos, e seu nariz arredondado, que era bastante avantajado, puxava seus lábios de maneira que sua expressão parecia levemente melancólica durante a maior parte do tempo. Mantinha os cabelos bem penteados para trás, no corte mais tradicional possível dentre os militares, e vestia orgulhosamente seu uniforme acinzentado.

        -Herr Reindhardt! – cumprimentou ele, respeitosamente, considerando que, apesar de já tê-lo conhecido há alguns anos, Alexis já havia tomado uma patente superior à sua. – Que bom vê-lo! Muito obrigado por ter vindo. Não sabe como sua ajuda é bem vinda... os sub-campos nos mandaram carga demais. Precisamos liberar um pouco de espaço... se é que me entende.

        -Certamente. – riu Alexis, tirando seu quepe e passando a mão pelos cabelos. – Quais pretende eliminar?

        -Temos alguns que não conseguem mais trabalhar. E outros doentes... acho que será o suficiente. Se não, podemos escolher mais alguns.

        -Entendido. – respondeu ele, gesticulando para que os soldados fossem para fora e chamassem alguns outros. – Mas acho melhor segurar os sub-campos, Alex. Logo não estarei aqui para ajudá-lo dessa maneira.

        -Sem problemas. Os planos para a Polônia vão nos ajudar bastante, sabe? Espero que tudo corra bem para você e os outros.

        Alexis apenas sorriu como resposta, e foi para fora, onde encontrara um grupo de quinze soldados de prontidão. Eles o guiaram até a parte de trás de um prédio, que dava para uma pequena floresta onde dificilmente apareceria alguém para atrapalhá-los. Ele achava aquele método um tanto direto demais, e ineficiente. Mas era necessário de vez em quando, visto que aparentemente o ‘outro’ método havia se esgotado para aquele dia – e Piorkowsky parecia ocupado demais para sair de seu escritório para algo tão trivial. Mas não importava; Alexis apenas encarava aquilo como uma atividade matinal. Tirou a luva de sua mão direita, e pegou a pistola sob o casaco. Retirou a trava, e esperou de braços cruzados a chegada dos prisioneiros.

        Um novo grupo de guardas trazia-os enfileirados, e eles mantinham suas cabeças baixas. Estavam magros e sujos, como assombrações, e mal possuíam forças para andar. Andavam por medo; haviam sido domesticados e não ousavam desobedecer uma ordem sequer dos guardas. Eram em sua maioria homens em seus quarenta anos, e alguns idosos e mulheres, todos vestindo uniformes surrados e sapatos desmanchados. Mas dificilmente fazia-se alguma distinção naquele local; eram apenas criaturas a serem eliminadas.

        Um sorriso esboçou-se no canto dos lábios de Alexis enquanto via-os passar por sua frente. Ele os fitava cruelmente, com aqueles olhos azuis quase da cor do gelo, assustadoramente confiante de si mesmo. Cada prisioneiro que olhava em seu rosto parecia cair em um desespero ainda mais profundo do que já estava retratado em suas faces – e isso lhe dava um prazer indescritível. O prazer de ser o predador prestes a acabar com sua presa.

        Após os guardas alinharem todos os prisioneiros enfileirados, Alexis levantou o braço esquerdo e apontou sua arma. Os soldados colocaram-se em posição. E ainda com um macabro sorriso em seu rosto, Alexis gritou, abaixando o braço em ordem:

        -Feuer!

        Uma onda de tiros, incluindo o de sua própria Reichsrevolver, ecoou no ar, fazendo com que os poucos pássaros que haviam nas árvores da pequena floresta levantassem vôo. Os corpos dos prisioneiros foram ao chão como pedras, e os poucos que ainda se moviam logo entregavam-se à morte. Alexis abaixou a arma e suspirou pesadamente, com a sensação de ter finalizado mais um trabalho, enquanto ria silenciosa e satisfatoriamente. Ele guardou a pistola de volta no coldre por debaixo de seu casaco, e vestiu a luva novamente. No entanto, antes que pudesse virar-se para declarar o trabalho concluído, recebera uma exclamação repentina de um dos soldados.

        -Cuidado, Gruppenführer!!

        Alexis nem sequer virou-se para ver o que vinha em sua direção. Apenas jogou-se ao chão, protegendo o rosto com braços, enquanto ouvia o som de um disparo que atingia uma árvore atrás dos prisioneiros mortos. Alexis virou os olhos arregalados para a árvore, fechando a mão em punho e com grande ira em sua expressão. Levantou-se rapidamente, pegando a pistola sem sequer tirar a luva.

        -Por Deus, o que diabos foi isso!? – berrou ele, procurando ao redor o responsável por aquilo. Ao lado de um dos prédios, avistou dois guardas que seguravam um garoto de cerca de vinte anos contra o chão. Um outro guarda vinha até ele, segurando uma pistola antiga em mãos, e ajoelhando ao chão como pedido de desculpas.

-Sentimos muito, Herr Gruppenführer. Aquele rato deu algum jeito de conseguir isto e encontrá-lo aqui justo neste momento... iremos investigar imediatamente e nos certificar de que não acontecerá novamente.

        Alexis manteve o cenho franzido, e rangeu os dentes. Sem importar-se com o soldado, foi a passos rápidos e pesados até o garoto que debatia-se no chão, segurando-se para não derramar lágrimas. Ajoelhou-se em sua frente, e agarrou seu rosto, apertando-o com os dedos e falando entre os dentes:

        -Como você ousa. Um verme como você, tentando me atingir... como você ousa...

        O garoto exclamou em outra língua algo do qual podia-se somente identificar a palavra “Isa”. Alexis levantou-se e ordenou que os soldados o soltassem, o que fizeram com grande hesitação. Antes que ele pudesse levantar-se para tentar fugir futilmente, Alexis pisou com força em suas costas, colocando todo seu peso na perna, apertando seu corpo contra o chão. O garoto batia as mãos na terra, e exclamava de dor a cada estalo de seus ossos. Quando ele finalmente parou de se debater, Alexis simplesmente levantou a perna e chutou consecutivamente seu estômago com a ponta da bota, fazendo-o tossir e soluçar de dor. Depois, pisou sobre sua cabeça e abaixou-se, de forma que o garoto pudesse ver o macabro sorriso em seu rosto. Levantou-o pelos cabelos e fitou seus olhos ameaçadoramente.

        -Peça a Deus que avise seus amiguinhos a jamais desafiarem um homem do império. – disse sarcástico, colocando a pistola por debaixo do queixo do garoto, que choramingava. E, sem esforço ou hesitação alguns, simplesmente apertou o gatilho.

        Jogou o corpo ensangüentado no chão, e tirou as luvas, jogando-as para um soldado próximo. Elas já estavam sujas demais. Tomou seu caminho até o escritório, dando as costas pros outros soldados, com as mãos em punho. Abriu a porta com força, fazendo com que Piorkowsky quase derrubasse a pilha de papeis em seus braços com o susto. Ele colocou-os sobre a mesa, com a mão no peito, suspirando.

        -Algo fora do planejado...?

        -Acho bom você manter um controle melhor sobre sua carga, Alex. Acaba de ganhar mais um lugar livre para o excedente, mas também trabalho extra. Um dos seus ratinhos conseguiu uma pistola sabe-se lá de onde.

        O outro fitou Alexis com os olhos arregalados, e passou a mão na testa, respirando fundo. A última coisa que ele poderia querer era deixar aquele homem irritado, apesar de não gostar nada de ter a atenção chamada.

        -Sinto muito, Alexis. Vou tentar descobrir como isso aconteceu. Prometo que não acontecerá de novo.

        -É o que eu espero. Até logo, Herr Piorkowsky.

        Alexis saiu pelo mesmo portão pelo qual havia entrado, com as mãos nos bolsos do casaco. Entrou no carro suspirando, e não ficou nada satisfeito quando encontrou uma pequena mancha de sangue em sua manga. Mas iria voltar pra casa de qualquer maneira, e poderia lavar aquilo o mais rápido possível. Não queria ter uma mancha de sangue daquela gente em suas vestimentas de maneira alguma. Suspirou mais uma vez, e fechou a porta, dando a ordem ao motorista.

        No caminho, o carro passou pelo portão principal de entrada dos prisioneiros, onde, modeladas em metal, estavam as palavras que Alexis tanto apreciava. “Arbeit macht Frei”, sussurrou ele para si mesmo. Arbeit macht Frei. Ele sorriu de maneira irônica, e encostou a cabeça no banco, baixando seu quepe. E, aos poucos, cochilou. Ainda seria um longo caminho até sua casa.

 

***

ALEXIS, 24 ANOS

        Alexis olhava mais para o relógio em seu pulso do que para as faces de qualquer uma das pessoas lá dentro. Após observar o ponteiro mover-se por alguns segundos, ele elegantemente arrumava a manga de sua farda e colocava os braços por trás das costas, olhando sobre a multidão – e caminhava normalmente, em direção à janela. Ousava dar alguns passos na para a saída ou mesmo para a varanda, mas era freqüentemente interrompido e, esboçando um sorriso consciente, cordialmente trocava algumas poucas palavras com aqueles que o abordavam. ‘É bom vê-lo por aqui’, diziam eles. ‘Na minha época, um jovem como você não tinha chances de chegar aonde chegou’ – algo com o qual ele respondia com um aceno de cabeça, um sorriso amarelo e um sarcasmo eminente na voz.

        -São novos tempos. – e retirava-se com a desculpa de que precisava ajeitar-se no lavabo. Só para ser novamente interrompido em seu caminho.

        Diplomacia em demasia o aborrecia. Em sua casa, passava horas sozinho durante as quais entretia-se com um bom livro, ou praticando em seu piano ou com seu violino. Se o tempo começasse a se tornar longo demais, entediava-se e simplesmente ia cuidar de seu trabalho. E o caminho oposto também ocorria. No entanto, viagens longas e eventos sociais eram trabalhosos demais. Especialmente quando ele, ainda considerado um novato por não ter sido parte de tudo desde o início, era obrigado a conhecer e passar seu tempo introduzindo-se a todos aqueles homens que, no fundo, guardavam um ligeiro desprezo por sua posição e por sua idade. Não era o único jovem a ganhar um posto elevado, mas era sem dúvida um dos que possuíam menos idade. De certa forma, amaciava-lhe o ego saber que era invejado; mas toda a falsidade da situação o incomodava. Sempre preferiu elogios sinceros, e podia sentir o sarcasmo que seguia durante ou após as conversas, quando aqueles homens juntavam-se com seus companheiros mais próximos e olhavam-no pelas costas. Mas fosse dentro ou fora, o mundo estava cheio de hipócritas. Ao menos lá dentro, algumas opiniões poderiam ser dadas com sinceridade. Algumas.

        Após algum tempo, conseguira aproximar-se da porta, pegar seu casaco e sair. Segurou-o próximo ao pescoço ao vesti-lo, sem abotoar, e desceu os degraus frente a casa onde a pequena celebração se passava. Ao olhar para o lado, via os motoristas jogando bolas de neve uns nos outros, como crianças finalmente livres da vigília de seus pais. Não se importava. Eram apenas motoristas; eles sequer o tinham visto, ou teriam recuperado da rigidez e batido continência no mesmo momento. A passos lentos, afastou-se em direção ao vazio, parando sob uma árvore e apoiando o ombro sobre sua casca gélida. Com um longo suspiro, encheu os pulmões do ar frio que o circulava e, arrepiando-se, puxou a gola de sua farda para cima, protegendo-se. E pensou que, apesar de não apreciar eventos daquele tipo, estava satisfeito. Satisfeito com seu trabalho; havia subido mais rápido que muitos e era respeitado, tinha sua autoridade. Com sua vida; tinha uma casa apenas dele, ajudava sua mãe quando ela precisasse – após a morte do esposo, sua saúde havia piorado – e podia comprar o que quisesse ou precisasse. Sua ambição nunca fora dinheiro; mas, sim, enriquecer seu próprio ego. Queria ser bom no que fazia, queria ser admirado, queria dignidade, mando, prestígio. E queria, ao seu modo, limpar o país – era o que estava ao seu alcance – de todos aqueles que ele considerava não dignos. Tal termo era, no entanto, deveras amplo; alguns do que ele achava não merecedores da vida que tinham estavam, inclusive, dentro daquela casa. Mas ele não era estúpido em absoluto e sabia que, sozinho, dificilmente conseguiria alguma coisa. Então, juntou-se ao grupo no momento certo – alguns, ele poderia eliminar e poderia, ainda, fazer disso um emprego e uma forma de conseguir poderio. E com suas próprias mãos.

        Fora interrompido por uma mão sobre seu ombro e uma voz chamando-lhe a atenção. Virou o rosto.

        -Cigarro? – disse-lhe o homem que lhe dirigia a palavra, oferecendo-lhe do maço. Alexis hesitou por um momento, e soltou um riso baixo.

        -Não, obrigado... Prefiro não abusar.

        -Ótimo. Não combina com você. – riu ele, acendendo o que levava entre seus lábios finos e guardando o maço no bolso do casaco. – Como passou o ano-novo?

        -Nada de mais... – respondeu Alexis, movendo o ombro. – A Hilde anda mais atarefada com o casamento, de qualquer forma.

        -Ela vai se casar? Deuses. Não desejo isso para ninguém. – Ele suspirou. – Parece que até algum tempo atrás, ela não passava de uma criança. – disse, ajeitando os óculos.

        -Ainda parece não passar, se conviver algumas horas com ela. – Alexis soltara outro riso, baixo, passando as costas da mão sob o nariz.

        -Você também não deveria ter crescido tanto. Acho que isso quer dizer que estou ficando velho... Mas sabe que ainda tem essa mania de esgueirar-se por uma fresta e se isolar dos outros.

        -Sei... nunca... fui de conviver com multidões por muito tempo.

        -Multidões? Muito tempo? – Riu ele novamente, tragando do cigarro. – Por Deus, Alexis, não tem nem trinta pessoas lá dentro... e mal se passaram duas horas. Tem certeza que isso não veio piorando com o tempo?

        -Talvez... acho que amadureci, não concorda? – sorriu Alexis. – O que me intriga mais é se o senhor pode se dar ao luxo de deixar aquele lugar.

        -Ach, eu tenho a minha autoridade. O discurso, eles dizem, o discurso... inferno, eles o ouvirão quando for a hora. E fumar aqui fora me pareceu melhor, também. Principalmente quando vi que você estava ausente.

        -E o seu favorito?

        O homem sorriu e apertou os olhos, passou as mãos pelo ralo bigode em seu buço e bateu sobre o ombro do mais jovem.

        -Foi uma ponta de ciúmes que senti nessa pergunta?

        -De forma alguma. – Sorriu Alexis, simpático. – Mas ele, sim, pode ficar com algum ciúme.

        -Há, não... Não se preocupe com isso. Ele tem os próprios assuntos pra cuidar. Tem tanto nas mãos, que me impressiona que chamem apenas a mim de viciado em trabalho...

        -Quem não é, hoje em dia... – suspirou o jovem, ajeitando o quepe sobre a cabeça, e riu. – Boa sorte com o discurso.

        -Esse maldito discurso, até você. Venha, que frio dos infernos, nem sei como você agüenta. Beba uma taça de vinho, coma mais alguma coisa e depois pode ir pra casa. Ou hotel. Em que hotel resolveu ficar? – Ele mais uma vez bateu sobre as costas de Alexis e gesticulou para que ele o seguisse.

        -O de sempre... perto do portão de Brandemburgo. E obrigado, Reichsführer. Depois do vinho, vou precisar dormir... – sorriu Alexis, seguindo-o.

        -Aah. É um bom lugar. E sem títulos, Alexis, não agora. É Heinrich quando podemos deixar de lado as formalidades. – Ele ajeitou o casaco sob o queixo quase inexistente. – Deuses, que frio.

        Alexis sorriu novamente e encolheu os ombros, entrando. Ambos os homens tiveram de interromper o diálogo assim que foram abordados por outros; mas Alexis fez como lhe foi permitido, e, meia taça de vinho e um prato de comida depois, desvencilhou-se novamente do bando e dirigiu-se para o carro. Interrompeu a diversão dos motoristas, fazendo com que um, ao levantar-se em continência, levasse uma bola de neve no rosto. Suspirando, apenas olhou para o lado e soltou um riso pelo nariz, sorrindo com um canto dos lábios. Entrou por si mesmo no carro enquanto o pobre jovem que para ele dirigia ajeitava-se e corria para ligar o veículo, e deixou o quepe sobre o colo. O motor rugiu e o carro seguiu seu caminho, com os dois homens em silêncio – os motoristas dificilmente dirigiam palavra a seus chefes, e Alexis claramente não era a pessoa mais comunicativa do mundo. Sem muita delonga, o automóvel frente ao hotel e, com uma saudação, o motorista despediu-se de seu chefe após assegurar-se que ele não precisaria mais de seus serviços. Alexis retribuiu com um leve gesto de cabeça, e entrou para aquecer-se de uma vez, cruzando o saguão como uma flecha e subindo direto para seu quarto.

        Sem pensar duas vezes, despiu-se de seu uniforme e entrou direto debaixo da água quase fervendo do chuveiro, suspirando profundamente e deixando-a bater em seu peito e face. Fechou os olhos e passou as mãos pelo rosto, pressionando as têmporas com os polegares. Encolheu os ombros e alongou o corpo, esticando os braços para frente e molhando os finos cabelos louro esbranquiçados, passando os dedos entre os fios, em seguida. Pegou o sabonete e começou a lavar-se, vagarosamente, passando os olhos sobre sua própria pele. Nenhuma imperfeição, pensou ele. Ele poderia conviver com a imperfeição do mundo; mas não com a própria. Vaidade era uma das palavras que melhor o definiam, e que também, de certa forma, o atormentavam. Não gostava de sujar-se, e nunca poderia imaginar manter seu ego em seu nível satisfatório se ganhasse alguma cicatriz. Seu corpo deveria ser perfeito. Corpo e mente, do jeito que ele considerava perfeito. Ele era magro, porém forte; seus ombros eram largos e seu tronco bem definido, e a espessura de seus braços ornavam de maneira perfeitamente proporcional; não era corpulento em demasia, mas tinha músculos que lhe davam um porte elegante em seus vinte e quatro anos.

        Cautelosamente esfregou a espuma pelos membros, enxaguando-os apenas colocando-os sob a água, e começou a lavar os cabelos, massageando a cabeça devagar. Após deixar a cabeça sob o chuveiro por alguns minutos, fechou o registro e puxou uma toalha, secando-se no calor do vapor que enchia o banheiro. Saiu, dirigiu-se diretamente para o aquecedor e ligou-o, vestindo frente ao armário. Passou a toalha pelo cabelo e escovou-os com os dedos – não era necessário mais do que isso para colocar os fios em seus lugares - , seguiu para a cama e apoiando-se na cabeceira, pegou o livro que havia deixado na cômoda e abriu na página marcada. Ele ficaria lendo, em silêncio, até entardecer e o sono surgir. E foi o que fez; algumas poucas horas depois, ajeitou-se sob as cobertas e adormeceu rapidamente, em seu sono pacato e silencioso como o de uma criança. 

 

***

ALEXIS, 35 ANOS


        Às vezes, ele sentia como se tudo aquilo não fosse verdade. Mas era um sonho do qual nunca acordava; era a realidade que interrompia os seus sonhos de verdade. Acordou num tranco e viu-se sentado em sua poltrona, em frente à lareira de sua própria sala. O fogo já havia há muito se extinguido, e apenas as cinzas ainda queimavam suas últimas forças. O livro que estivera lendo havia caído de seu colo para o chão, aberto, e o frio que entrava pela fresta da porta do quintal lhe trazia arrepios. Por que diabos essa porta está aberta, em primeiro lugar? Levantou-se e foi até a porta do quintal, fechando-a. Por um momento, pegou-se observando um pequeno arbusto de rosas que existia em seu quintal desde que podia se lembrar. Sabia que não estava ali da primeira vez que entrara na casa, mas, por algum motivo, desde que ele havia surgido Alexis sentia-se incapaz de sequer pensar em tirá-lo dali. Aquelas flores lhe proporcionavam uma tranqüilidade estranha, e eram a visão mais agradável do quintal nos dias quentes nos quais ele resolvia sentar-se a sombra e respirar um pouco do ar fresco. Já era noite, no entanto, e as poucas rosas que sobreviviam ao outono ganhavam na escuridão uma cor muito mais sombria do que nos dias de verão. A escuridão de fora fê-lo pensar no silêncio da casa, e levou algum tempo até lembrar-se de que Vladilena havia voltado para sua própria moradia; estava, finalmente, sozinho como tanto desejou. Mas ainda não me lembro quando foi que abri essa maldita porta.

        Fechou as cortinas após verificar o quintal já escuro por completo. Seus vizinhos estavam em casa, sabia graças às luzes acesas nas janelas. Não os conhecia bem, mal sabia seus nomes, e nunca considerara esforçar-se para fazer amizades. Não se importava, realmente. Talvez houvesse um tempo em que o fazia, mas não se lembrava. Pegou o livro do chão e foi até a cozinha, ouvindo o silêncio tão costumeiro de sua própria morada quando se encontrava sozinho. Encheu uma chaleira com água e colocou-a sobre o fogão, pegando então a caixa de chá no armário. Sabia que se tomasse café a noite, não conseguiria dormir de maneira alguma. Apoiou o quadril na bancada e arrumou os óculos sobre o nariz, procurando a página na qual havia adormecido. Folheou, passando os olhos pelas palavras, tentando lembrar-se do que havia lido. Andava sentindo dificuldade em concentrar-se, e quando não conseguia se concentrar em sua própria leitura, sabia que algo estava muito errado. Apertou os olhos ao ter certeza de chegar em uma passagem que não havia lido. ‘A raça humana é algo monótono. A maioria das pessoas usa a maior parte do seu tempo trabalhando para viver, e qualquer pequena liberdade que sobra os enche de medo...’. Suspirou e usou a embalagem do saquinho de chá para marcar a página, deixando o livro sobre a bancada. Onde estava com a cabeça ao pegar esse livro da estante?

        Ao ver o vapor subindo pela chaleira, desligou o fogo e serviu-se do chá em uma xícara, introduzindo e retirando o saquinho na água, esperando-a tingir-se. De repente perguntou-se quando fora a última vez que comera, e percebeu que não conseguia lembrar-se. Talvez tivesse sido no café da manhã. Acreditava ter cozinhado o almoço, mas não sabia o que havia sido e se havia comido. Foi até a geladeira e olhou dentro. Não havia muito; um pouco de salada, batatas, um pequeno pedaço de carne que havia sobrado do pouco que cozinhara para si. Ao menos parecia ter almoçado, a não ser que aquilo estivesse ali desde o dia anterior. Talvez devesse pegar aquelas sobras e comer algo antes de dormir, mas seu estômago o impedia de pensar em comida. Sentia cada vez menos fome, e, após algumas tentativas, notou que forçar-se a comer fazia-o sentir ânsia ou causar-lhe até dores de cabeça.

        Pegou a xícara de chá e apagou as luzes de sua cozinha, subindo as estreitas escadas até seu quarto, o único da casa. O lugar não era grande. O maior aposento era a sala de estar apenas porque o grande piano de cauda assim exigia. Todo o resto era suficiente para apenas uma pessoa, uma pequena casa de dois andares que lhe dava o luxo de um escritório e até uma saleta ao lado do quarto; e era assim que ele apreciava. Morava sozinho, e cuidava de sua casa sozinho; um lugar grande demais seria apenas um grande inconveniente. Encostou a porta do quarto, deixando a xícara sobre a cômoda ao lado da cama de casal que, por algum motivo, estava em seu quarto até antes de juntar-se a Vladilena. Costumava dormir de apenas um lado, nunca ocupando o meio ou a extensão inteira da cama, mas havia se acostumado a sua largura que acabara se tornando conveniente considerando as poucas visitas que recebia. A primeira imagem que lhe veio a mente, no entanto, não foi a noiva. Pensara em ‘família’ ao sentar-se, e sua mente divagou até sua própria sobrinha. Julia.  

        Há quanto tempo ela não a visitava? Deve estar com seus oito anos, ou seriam mais? Lembrava-se dela claramente quando era um bebê de colo, quando havia acabado de aprender a andar, quando ele ainda visitava sua irmã em sua cidade natal. Parece que foi há dezenas de anos. As visitas de ambos os lados haviam ficado cada vez mais raras, provavelmente devido a sua posição, a sua situação delicada. Perguntou-se se estaria sentindo falta dela, da família... de sua própria mãe. Ela também estava no mesmo lugar, ali, desde que ele nascera, na casa que ele crescera. Ou, ao menos, era o que gostaria de acreditar. A casa ainda estava lá... mas pelas notícias que recebia, a mãe passava mais tempo em um quarto de hospital do que na própria casa. Pensar naquele lugar vazio, abandonado, lhe dava um aperto no peito que ele nunca havia conseguido racionalizar. Talvez seja hora de uma visita, e dessa vez, uma visita decente. Longa. Mas a vontade lhe faltava. Ou seria a coragem?

        Lembrou-se de seu chá que esfriava sobre a cômoda e pegou a xícara envolvendo-a em ambas as mãos, aquecendo-se. Bebeu, deixou-a de volta, levantou-se e foi direto ao banheiro. Despiu-se e abriu o chuveiro, agradecido pela água aquecida que descia pelo chuveiro que batia em seus ombros e descia pelo seu corpo. Deixou-a molhar seus cabelos finos e seu rosto, fechando os olhos, sentindo como se o banho pudesse levar suas preocupações ralo abaixo. Não costumava funcionar, mas a sensação era reconfortante. Lavou-se, lavou os cabelos, o rosto, o corpo, os ombros, o ombro, aquele ombro. O ombro distorcido pela cicatriz, sua grande lembrança de sua maior humilhação, sempre ao seu lado, acompanhando-o. Suspirou em frustração, e enrolou-se na toalha após enxaguar-se e desligar o chuveiro. Aproveitou o vapor para se secar e foi até o quarto, vestiu-se e engoliu um de seus remédios que lhe proporcionavam um sono mais agradável. Deitou-se de seu lado da cama, virando-se de costas para o outro, e adormeceu.

        A manhã seguinte acordou-o com um raio de sol em seu rosto através das cortinas. Havia dormido de costas para a janela... e acordado de frente para ela. O travesseiro do lado estava em seus braços, o cobertor emaranhado em volta de seu corpo. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, por mais que não costumasse se mover durante o sono. Puxou o travesseiro sobre o rosto, faltando-lhe forças para levantar, e passou alguns minutos em silêncio e imóvel. Não queria de saber que horas eram, normalmente levantava-se cedo, mas a solidão lhe dava um sabor de liberdade. Conseguiu cochilar por mais alguns minutos, e foi acordado novamente com o som da campainha.

        O pensamento de deixar quem quer que fosse esperando do lado de fora lhe fora tão tentador que só considerou levantar-se quando a campainha ficou mais insistente. Praguejando, levantou-se da cama e foi até o banheiro para lavar-se, irritando-se mais a cada toque. Desceu as escadas ainda em roupas de dormir e abriu a porta com uma expressão incomodada. O homem na porta lhe sorria por trás dos óculos, gesto que Alexis não retribuiu.

        -Por um momento achei que tinha morrido. – disse o homem de óculos. Tinha quase a mesma altura de Alexis, e os cabelos louro areia penteados para trás com apenas alguns fios caindo-lhe sobre o rosto como franja. Trazia um jaleco branco e uma sacola de pães num braço, e um pouco de café no outro.

        -Por um momento quase quis morrer. – respondeu Alexis num quase rosnado. – O que foi?

        -Bom dia pra você também.

        Alexis soltou um resmungo.

        -Seu humor está agradável como sempre, Alexis. – disse o outro, tomando a liberdade de entrar na casa e levar a comida até a cozinha. – Imagino que a saúde esteja como sempre também, então.

        -Está. Não precisava ter vindo...

        -... Por mais que eu saiba que o seu ‘como sempre’ é o que a maioria das pessoas consideraria como péssimo? – Alexis não respondeu. – Você comeu ontem?

        -Não sei.
        -Não sabe? – o homem de óculos levantou uma sobrancelha.
        -Não me lembro. Acho que sim.
        -Não lem... acha que sim?
        -Fiz chá antes de ir pra cama.
        -Claro.
        -E tomei o remédio também.
        -‘O’ remédio? Qual deles?
        -O de sempre.
        -Deveria ter mais de um ‘de sempre’, Alexis.

        Respondeu com um rosnado. No fundo sabia que deveria nutrir certa gratidão pela preocupação do amigo, que atuava ainda como seu próprio médico particular. Era, talvez, o único que Alexis poderia chamar de amigo, se é que ele também se via como tal. Se ele ainda se dá ao trabalho de vir, devo assumir que sim.

        -Você não devia estar trabalhando, Erich?

        -Na verdade estou desperdiçando minha folga com você. – sorriu por trás dos óculos, entregando-lhe um dos pães que havia trazido. – Coma.

        -Ora, obrigado pela consideração. – Alexis apenas fitou o pão, sem dignar-se a pegá-lo. – Não tenho fome.

        -Você nunca tem fome. Por isso anda cada vez mais parecido com um cadáver. Coma, que não quero te ver parar lá no hospital por inanição.

        Com um resmungo, Alexis pegou o pão e mordeu-o sem vontade, enquanto Erich o observava atentamente. Mastigava devagar, com uma sensação estranha no estômago, forçando-se a colocar a comida para dentro. Talvez ele tivesse mesmo razão. Não seria bom se acabasse magro demais e parecesse ainda mais velho do que se sentia, com sua vaidade ferida. Como se não bastasse aquele horror em meu ombro. Se fosse obrigado a comer um pouco mais para manter-se em forma, como costumava fazer quando era mais jovem...

        Erich pegou duas xícaras no armário e encheu-as de café, adicionando a ambas um pouco de leite fresco, e entregando uma delas a Alexis. Este, por sua vez, aceitou-a sem reclamações e bebeu. O gosto pareceu-lhe estranho, mas nada disse; estava tão acostumado a beber o café que fazia para si mesmo, que café comprado lhe parecia estranhamente artificial. Ao menos serviria para ajudar com o pão, o qual sentia cada vez mais incômodo em colocar para dentro. Puxou um dos bancos de madeira e sentou-se, engolindo o último pedaço, enquanto Erich ocupava-se com sua própria refeição. Alexis mantinha-se em silêncio, observando o vazio.

        -O que tem feito? – perguntou Erich.

        -Nada. – respondeu Alexis, incomodado. – Realmente, nada.

        -Ainda anda trabalhando... com aquilo?

        Como os ideais mudam. Ao menos, não os de Erich. Desde que o havia conhecido, ele sempre fora contra aquilo.

        -Tem algo mais com que eu possa trabalhar?

        -Se você ao menos tentasse...

        -Tentasse não acabar preso, Erich?

        O amigo olhou-o incomodado. Alexis sabia o que ele estava pensando, sabia que ele se perguntava para onde havia ido toda a força de vontade que ele já teve, quando era mais jovem, quando não se deixou vencer mesmo ao beirar o desespero. Aqueles foram bons tempos. Alexis pigarreou.

        -Se eu pudesse... – murmurou para si mesmo, e soltou um suspiro longo. Virou o olhar para o lado, no lugar vazio da mesa. Ali sempre haviam dois lugares. Sempre, desde antes de Vladilena freqüentar sua casa...

        -Se você pudesse, já teria feito?

        Alexis ergueu o olhar para Erich. Sem responder, levantou-se e levou a xícara até a pia, enxaguando-a lentamente. Se eu pudesse, já teria matado todos que ajudaram a minha vida a se tornar esse inferno. Se pudesse. O que poderia fazer?

        Erich encarou-o por um momento e levou a própria xícara vazia até a pia.

        -Se tem vontade, deveria pensar em algum jeito...

        -Conhece algum jeito?

        -Eu nunca trabalhei com o que você trabalhou, Alexis.

        Então deve ser por isso que não faz a menor idéia do quão difícil isso poderia ser. Segurou a própria língua, encarando-o. O único amigo que possuía.

        -Sei que não. – respondeu, amuado.

        Erich ficara por mais alguns minutos antes de retirar-se de volta a sua casa. Tem uma família, tem mais conhecidos com quem conversar. Não que estivesse inclinado a longas conversas. Alexis despediu-se taciturno, e tentara voltar a sua leitura após já ter sido tirado da cama e sentir-se incapaz de voltar a dormir. A tarde poderia ter passado tranqüila. Mas não demorara mais de algumas horas até que a campainha tocasse novamente.

        E Alexis sabia quem estaria lá. E sabia que seu dia estaria arruinado.


***


Doll information:
Headmold: Volks SD17 Williams – The Darkness of Ensign
Body Type:Volks SD17 body
Skin Type: Normal Skin
Make up por: Volks (default) / Shiroi
Data de chegada: 10 de Junho de 2010





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