ANDREA CAVALCANTI


Nome Completo: Andrea Cavalcanti
Apelido: Andrea
Nascimento: 30 de Outubro de 1921
Altura: 1,79m
Signo: Escorpião
Local de nascimento: Sicília, Itália
Raça: Humano
Sexo: Masculino

Personalidade: Andrea é extremamente simpático, bem-humorado, e o que poderia ser chamado de bon-vivant. Não hesita em jogar seu charme sobre a primeira mulher que encontra e que lhe desperte interesse e levá-la para a cama logo no primeiro encontro. Gosta de ser o centro das atenções, de fazer as pessoas rirem e de conhecer pessoas novas, por mais que muitas vezes não forme laços profundos com elas. É também curioso e gosta de saber sobre outras pessoas, muitas vezes pelas suas costas, o que o levou a trabalhar como heraldista uma vez que não pôde mais contar com a herança do pai.

Atraído por pessoas excêntricas ou diferentes, Andrea foi um dos poucos que se aproximou de Damaran e a quem este chama de amigo. Com muito esforço e boa vontade, – e um pouco de infernização – conseguiu fazer com que Damaran se abrisse ao menos um pouco e, desde então, ambos tem se ajudado em negócios ou apenas saído juntos como amigos a procura de bebida e mulheres.

No entanto, a relação de Andrea com a família é ruim desde a infância – nunca gostou de sua madrasta, guarda rancor do próprio pai e se impediu de criar qualquer afeição para com a meio-irmã, com quem está sempre em conflito. Assim que pode, conseguiu afastar-se e morar sozinho, longe de qualquer um que pudesse aborrecê-lo, e aproveitou para fazer seu próprio lar onde produz o próprio vinho que tanto aprecia e cria seus próprios cavalos para hipismo, um de seus hobbies. 



***

ANDREA, 3 ANOS



       Era sua chance perfeita, e nada poderia dar errado. Um único escorregão e sabia que estaria de castigo pelo resto do dia e teria um encontro nada agradável com a vara. Nas pontas dos pés descalços, entrou na cozinha sem fazer barulho algum, escondendo-se sob mesas e atrás de prateleiras de panelas, até alcançar as gavetas. A cozinheira estava de costas para ele; o rapaz e a ajudante haviam saído para fazem compras. Escondia-se do lado do fogão, segurando o riso, sorrindo e mordendo o lábio. Colocou o dedo sobre a boca e sussurrou um leve ‘shhh’ para o enorme besouro que levava entre os dedos, para que ele também não fizesse nem um único som que pudesse estragar todo seu perfeito planejamento. Era um besouro obediente.

       Abriu a gaveta lentamente, milímetro por milímetro. Seu coração acelerava sempre que a madeira rangia, mas ele felizmente parecia ser o único a notar. Ergueu o braço, esticando-se o máximo que conseguia, silencioso como o ar, confiante, sabendo que ninguém o via... e deixou que seu fiel companheiro entrasse meio aos talheres, enfiando-se mais para ao fundo da gaveta sobre suas patas escuras e seguras. Com a primeira parte de sua missão comprida, Andrea fechou a gaveta com a mesma cautela que a havia aberto. Virou os olhos para a cozinheira. Aparentemente, ela estava distraída demais terminando o almoço. Fora o momento perfeito. Quase deslizando pelo chão de pedra da cozinha, ele voltou pelo mesmo caminho, escondendo-se sob a mesa da sala de jantar. Agora tudo dependia do besouro.

       Ouviu os passos da cozinheira pela cozinha, o tilintar de panelas, e finalmente, o rangido da madeira... e o grito de terror soou-lhe como música para seus ouvidos. Seu dia estava ganho, sua conquista realizada. Não conseguiu mais segurar o riso, e correu o mais rápido que pode quando a cozinheira se deu conta do culpado daquilo.

       -Patrãozinho Andrea!! – berrava ela, e Andrea por um momento sentiu pena do que teria sido de seu leal companheiro besouro. Mas não conseguia tirar o sorriso do rosto. Saiu pela porta da frente, aberta coincidentemente por alguém que entrava. Rolou por debaixo das pernas sem sequer ver quem poderia ser, e aventurou-se quintal afora, correndo direto pros estábulos. Ria descompassado, sem parar um instante, correndo o mais rápido que podia, cada vez mais satisfeito quando mais sua fuga durasse. Entrou por uma tabua solta da parede que já conhecia há muito tempo, pois seu pai já havia dado ordens para que os serviçais trancassem as portas dos estábulos depois de ele se esconder em meio aos cavalos dezenas de vezes. Mas o pai não era capaz de pará-lo. Assim como o besouro, os cavalos eram seus companheiros. Andrea não iria deixar de visitá-los, e sabia que eles jamais iriam traí-lo. Entrando direto no espaço de um enorme garanhão cinzento, o qual chamava de Tempestade, enfiou-se meio ao feno que o alimentava e, novamente, sussurrou para que ele ficasse em silêncio. Tempestade soltou um relincho de cumplicidade, e voltou a prestar atenção em sua água. Andrea afagou-lhe o focinho com a pequena mão, e escondeu-se o mais fundo que conseguiu.

       Levou tanto tempo até que alguém conseguisse encontrá-lo que Andrea acabara adormecendo em meio ao feno. Acordou assustando-se com Tempestade tentando comer seu cabelo, batendo o focinho sobre sua cabeça, e fora ao empurrá-lo que percebeu que não estavam sozinhos. Esfregou os olhos cor de mel ao ver as pernas que se aproximavam dele, o corpo que agachava-se para afagar-lhe sobre a cabeça, o sorriso do qual ele tanto gostava. Seus lábios eram vermelhos, a cor de seu batom favorito, e seus cabelos grandes cachos castanho escuros, quase negros. Afagava-o com uma mão magra, branca, que e ergueu-o em seu colo, depositando um beijo sobre sua bochecha.

       -Que belo esconderijo encontrou para quando resolve aprontar, Andrea... – sorriu ela, limpando e arrumando-lhe os cabelos. O sorriso de Andrea abriu-se de uma orelha a outra, e ele abraçou-a com força.

       -Mamãe! – enfiou o rosto sobre seus seios, rindo divertido. Sabia que se apenas ela o havia encontrado, era porque estava cada vez melhor na arte de ser esconder dos empregados da casa... e, conseqüentemente, do pai. – Eu não aprontei. Foi o besouro que entrou sozinho na gaveta...

       -Ah, então foi um besouro? – riu ela, saindo com ele do estábulo apos deixá-lo despedir-se de Tempestade. – Me pergunto quem deu a ele a idéia de assustar as cozinheiras do seu pai.

       Andrea levou as mãos sobre o rosto sardento, rindo.

       -Besouros não conseguem falar, mamãe...

       -E nem abrir gavetas, não é mesmo? – sorriu-lhe ela, levando-o para a casa em que ambos moravam. Uma casa pouco afastada do grande casarão da família, menor, mas ainda aconchegante, a casa onde parte dos empregados moravam. Andrea tinha seu quarto na casa principal, mas preferia mil vezes dividir a cama com a mãe a ficar sozinho em um dos aposentos daquele grande casarão. E quando saía pela porta e encontrava o pai no corredor...

       -Mas abrir gavetas não é aprontar! – riu mais, exibindo os pequenos dentes de criança com um buraco entre dois deles, resultado de um dente de leite. – Posso dormir com você hoje, mamãe?

       -Está com medo de levar bronca do seu pai? – riu ela.

       -Não... – O papai não gosta de mim. – Quero dormir com você.

       Ela passou os dedos por seus cabelos castanhos.

       -Claro, querido. Claro... – disse ela, com um leve tom entristecido na voz.

       -A mamãe trabalha hoje? – perguntou o pequeno, estranhando a falta do sorriso. – Eu fico com a mamãe até ela ir... – Já havia há muito aprendido que jamais poderia acompanhá-la em seu trabalho.

       Sua mãe sorriu. Ele adorava vê-la sorrir.

       -Então eu durmo com você até eu ir, e você me espera dormindo na minha cama, que tal? – entrou pela porta dos fundos da casa, dirigindo-se ao pequeno quarto que ocupava na casa, seus móveis consistindo de uma cama, uma pequena penteadeira e um baú de madeira para suas roupas.

       -Tá bom! – exclamou Andrea, satisfeito, acomodando-se sobre seu colo quando ela sentou sobre a cama. Abraçou-a e manteve-se em silêncio, aproveitando o carinho que ganhava. Pouco depois, ela deu-lhe o que comer para o jantar, algo que ela mesma preparara na pequena cozinha da casa menor e ele a ajudara a cozinhar. Não levou mais do que alguns minutos depois do jantar até que Andrea começasse a sentir sono, e ela levou-lhe para a cama, deitando-se com ele. Cantou-lhe a mesma canção que cantava toda a noite, a canção sobre a criança que dormia nos braços da mãe... e era o que Andrea sempre fazia. Adormecia em seus braços, segurando com a mãozinha em seu vestido, rezando silenciosamente para que ela ficasse sempre ao seu lado.



***

ANDREA, 5 ANOS



       Ela era a pessoa que ele mais amava. De todas as pessoas que ele conhecia, era a única de quem jamais queria se separar. Não importava o quê.

       Era seu aniversário de cinco anos, e fora obrigado a encontrar os parentes de seu pai na casa grande. Havia uma pequena comemoração; ele era, afinal, o único filho de seu pai. Pessoas estranhas vinham até ele, olhavam-no, dirigiam-lhe falsos sorrisos e diziam que belo garoto ele era. Andrea sabia muito bem distinguir um sorriso de verdade de um de mentira; sorrisos de verdade são calorosos. Mal podia esperar pela primeira chance de fazer algo que seria realmente divertido. Seu pai ficaria furioso, ele sabia, talvez até lhe batesse se o pegasse dependendo do que conseguisse fazer... mas tudo valeria a pena contanto que pudesse espantar todas aquelas pessoa de casa, fazê-lo passar vergonha e poder voltar para a casa dos empregados para brincar com a mãe. É meu aniversário, e ele nem deixou que ela viesse pra cá. Jamais em sua vida havia visto a grande maioria daquelas pessoas todas.

       Havia uma mulher, no entanto, que ele já conhecia e que fazia questão de mostrar-se a ele sempre que ele estava na casa grande. Uma mulher mais velha que a sua mãe, de cabelos castanho claros e longos, lisos por suas costas e acabando em fartos cachos grossos. Vestia-se sempre ricamente, muito mais que sua mãe, com vestidos de seda verde, turquesa, azul céu. Seu pescoço sempre exibia jóias, pérolas, cordões de outro que combinavam com os caros brincos que brilhavam em suas orelhas, todos, como ela adorava declarar, presentes de seu pai, dignos dela, de uma filha de uma das famílias mais ricas da Sicília e que uma mera prostituta dos portos jamais poderia sequer pensar em possuir. Uma mera prostituta dos portos... como a mãe de Andrea.

       Ele a desprezava. Cada palavra que ela lhe dirigia era uma facada, em seu próprio orgulho infantil e no carinho que sentia pela mãe. Um dia, enquanto ele tentava sair pela porta da frente, tentara aproximar-se com uma conversa que deu a Andrea um nó no estômago.

       -Você pode me chamar de mãe, se quiser. Já que a sua mãe não vai poder ficar por aqui para sempre. – disse-lhe ela, com um sorriso que quase levou Andrea a bater-lhe na cara com a mão espalmada.

       Ele se segurou.

       -Não quero. Obrigado. Você nunca vai ser que nem a minha mamãe. – e correu, passando por debaixo das saias dela, deixando um rubor subir por seu pescoço branquelo e enfeitado. Mas ela não podia amaldiçoá-lo ali, ele sabia. Se o pai ouvisse, não seria nada bom para ela também. Apenas por passar uma má impressão para os empregados.

       Ali estava ela, no salão, cumprimentando os parentes que vinham para seu aniversário como se fosse o de um filho dela. Vestia-se em seda púrpura, com os cabelos presos em um coque, e sorria mais do que o habitual. Andrea não gostava daquilo; os sorrisos dela lhe davam um mau pressentimento. Sua atenção foi desviada quando uma senhora gorda apareceu a sua frente e apertou tanto suas bochechas que Andrea pensou que ela estava tentando arrancar a pele de seu rosto. Lacrimejou e esfregou a pele ardida com as palmas das mãos, olhando emburrado para a velha.

       -Mas como você cresceu, Andrea, como está bonito! – disse a velha, aparentemente não percebendo que Andrea já havia não gostado dela. – Você lembra de mim, não lembra? Te vi quando era desse tamanhinho...

       -Morsa.

       A mulher não pareceu entender.

       -Perdão?

       Andrea sorriu.

       -Não lembro, não. Desculpe. – e desvencilhou-se da mulher, procurando abrigo sob o piano da sala. Algum de seus tios tocava uma música que ele não conhecia, e Andrea, em seu abrigo, procurava o único rosto familiar que lhe agradava. Mas, aparentemente, ele não viria. Quando perguntou para o pai, ao ele negar-lhe a presença da mãe em seu aniversário, se o tio de quem ele gostava viria, apenas recebera uma resposta atravessada.

       -Não. Ele estará ocupado demais para vir.

       Você o deixou ocupado demais para vir, era o que Andrea gostaria de responder. Graças a isso, estava preso com desconhecidos, pessoas de quem ele não gostava, parentes que insistiam em fazer contato com ele por obrigações que deviam ser cumpridas na frente de seu pai. Me deixem em paz, queria gritar. Meu pai não se importa se vocês são gentis comigo ou não. No entanto... não o faria. Tinha algo muito especial preparado para todos eles, e já que estavam todos ali, todos iriam se divertir... todos, especialmente eu.

       Subitamente, o barulho na sala diminui-se, e todos aos poucos viravam-se para a porta principal. Andrea fitou o homem que entrava. Um senhor alto, de cabelos claros e um bigode perfeitamente arrumado sob o nariz avantajado, de ombros largos e em boa forma, de feições severas e mandíbula travada. Alguns poucos fios grisalhos cruzavam seus cabelos louro areia cuidadosamente penteados e seu terno estava impecável. Meu pai.

       Havia finalmente dado a todos a graça de sua presença, não sentindo a menor necessidade de recebê-los em sua chegada. Empregados e o mordomo seriam o suficiente até que ele pudesse reservar seu tempo para cumprimentá-los... e seus cumprimentos resumiam-se a acenos de cabeça e breves palavras em voz baixa enquanto os parentes iam até ele para depositar-lhe um respeitoso beijo sobre seus dedos da mão. O homem que tocava o piano parou para ir até ele, e a senhora gorda estava oh, tão, mas tão feliz em vê-lo. Não demorou alguns segundos até que a mulher de púrpura fosse até ele e tomasse seu braço, como a bela e exemplar esposa que era. Ele deu-lhe um olhar um pouco menos frio do que o comum, enquanto ela sorria-lhe como a mulher mais feliz do mundo por estar ao seu lado. Com apenas um aceno, fez com que todos retomassem suas conversas, recolhendo-se a um canto com aqueles que estavam mais ansiosos em falar-lhe. Andrea o observava em silêncio, com a expressão fechada. Era capaz de odiá-lo ainda mais quando aquela mulher resolvia grudar em seu braço, quando sua mãe havia sido tão injustamente proibida de comparecer a sua festa de aniversário, pela qual ele nem havia pedido. E essa mulher sorrindo dessa forma...

       Engatinhou em direção a porta, rezando para não ser notado, com a certeza de que bastaria um passo para fora para vir-se em liberdade...

       -Querido, veja. Acho que o Andrea está com fome, ansioso dessa forma para sair e ir até a cozinha...

       Maldita seja.

       O pai dirigiu-lhe um olhar frio, deixando a mulher sozinha e indo em sua direção. Andrea levantou-se, com as mãos nas costas, e apertou os olhos, temeroso. Sentiu as mãos dele por baixo de seus braços, os pés saindo do chão, e logo estava em seu colo, sento levado para o outro lado da sala. Não ousava abraçá-lo; mantinha as mãos perto do corpo, até ele depositá-lo sobre o sofá. Sob os olhares dos parentes, chamou o mordomo ordenando que ele começasse a trazer os aperitivos. Era melhor continuar fingindo que Andrea estava com fome, do que deixar claro que o garoto estava louco para fugir dali.

       -Não tenho fome. – reclamou Andrea, cruzando os braços e escondendo o rosto sob a farta franja castanha.

       -Ah, sim, você tem. – retrucou-lhe o pai, e Andrea podia ver em seus olhos o perigo que o esperava se ele continuasse argumentando. O garoto calou-se, e passou os próximos minutos em silêncio, sequer respondendo qualquer parente que se aproximasse dele. Isso lhe rendeu olhares desaprovadores do pai, mas já não se importava. Levantou-se, e pode ver a boca da mulher de púrpura já se abrindo novamente.

        -Preciso ir ao banheiro. – protestou, e saiu da sala com as mãos nos bolsos, a passos rápidos. Mulher insuportável.

       Ao passar pela porta, correu em direção ao banheiro, entrando e trancando-se lá dentro. Então, subiu sobre o vaso, abrindo a pequena janela sobre ele e esgueirando-se para fora, o mais rápida e silenciosamente que conseguiu. Encheu os pulmões com o ar fresco do quintal, ouvindo as vozes dos parentes ao longe, e resolveu colocar seu plano em ação. Esgueirou-se sob janelas, engatinhou no chão, correu até chegar aos estábulos. Agilmente, abriu a porta da frente, que dava diretamente em direção a casa grande. Depois, abriu as portinholas dos cavalos, uma por uma... e subiu as escadas de madeira até onde era guardado o feno, por baixo do qual havia escondido uma grande panela de metal e um pedaço de pau. Dentro da panela, ainda estava seus pequenos orgulhos, que haviam dado a ele tanto trabalho na noite interior para juntá-los. Cautelosamente, ergueu a panela sob a cabeça... e fez chover pequenas pererecas verdes sobre os cavalos, batendo com o pau no fundo da panela, num som ensurdecedor. Desculpem, Tempestade, Malhado, Romano. Sentia-se mal por assustar os cavalos daquela maneira, mas era um mal necessário.

       Em um caos de relinchos e cascos batendo na madeira, os cavalos saíam disparados de seus pequenos cercados, batendo uns nos outros indo em direção à saída. Andrea deslizou pela escada de madeira, e correu atrás deles para se certificar que iam na direção certa. Um ou outro desviava-se do caminho, indo para os pastos ou para a casa dos empregados... mas a grande maioria corria em desespero, em linha reta até a casa onde a festa acontecia tranquilamente. Andrea não conseguia parar de sorrir. Ouviu os gritos de um pobre motorista que limpava o carro de seu patrão, de duas ajudantes de cozinha que levavam o lixo para fora de casa. Os cavalos corriam por todos os lados da casa, levando alguns parentes curiosos a abrirem as janelas e tossirem com a poeira que entrava. Ouviu o grito estridente da mulher gorda, e começou a rir. Fora seu melhor aniversário com parentes até agora!

        O mordomo gritava pelos cavalariços, para que eles tentassem acalmar os animais e levá-los de volta para o estábulos, mas um deles estava ocupado demais livrando-se das pererecas que escondiam-se em meio ao feno. O outro corria de um lado para o outro sem saber ao certo qual cavalo acalmar primeiro, tentando aproximar-se de um e quase sendo atropelado por outro. Quando todos os animais haviam passado da casa para seguirem ao pasto, o burburinho da festa de aniversário de Andrea haviam se transformado em reclamações indignadas de mulheres e seus homens tentando acalmá-las, deixando-as ainda mais nervosas. Parece até que os cavalos correram dentro da casa, ria Andrea consigo mesmo. Divertia-se imaginando as expressões no rosto da mulher e de seu pai, como ele poderia estar se sentindo envergonhado por tamanho ‘desastre’ numa reunião de família. Andrea dirigiu o olhar para a janela...

       ... E seu pai o olhava com uma expressão fria, sem sequer mover um músculo de seu rosto para expressar raiva. A mulher, por outro lado, tinha uma mistura de desespero e ódio em sua face, por mais que tentasse se manter impassível. Quando seus olhos encontraram-se com os dela, ela estreitou-os, franzindo o cenho para ele como se aquela tivesse sido a maior afronta de todas. Andrea encarou-a por um tempo e mostrou-lhe a língua, disparando para a casa dos empregados, desesperado pelo abraço da mãe.

       Encontrou-a junto a alguns serventes, observando a bagunça que o garoto havia causado. Andrea agarrou-se em suas saias, e enfiou-se entre suas pernas, debaixo do vestido. Sentiu-a passando a mão sobre a sua cabeça e pegando em sua mão, levando-lhe para dentro, em silêncio. Entraram juntos no quarto, ela fechou a porta e colocou-o sentado sobre a cama, afagando-lhe o rosto. -Não se machucou, não é? – dizia ela, preocupada. – Seu pai vai se irritar se não estiver na sua festa, Andrea...

       -Deixe que se irrite. – respondeu ele, de bico. – Não queria aquela festa. Ele não deixou você ir...

       Ela suspirou e afagou seus cabelos, sentando-se ao seu lado. Andrea não compreendia porque ela não podia fazer parte da família. Ela é minha mãe, é mais importante que qualquer um ali, muito mais importante que a mulher de púrpura. Ela o confortava, mesmo quando ele havia aprontado. Por vezes dizia-lhe que ele não podia fazer aquilo, mas Andrea desconfiava que ela, também, tinha raiva de seu pai e achava que suas brincadeiras eram muito bem merecidas.

        Demorou algum tempo até que viessem buscá-lo com ela. Andrea desconfiou que o pai pudesse ter mandado todos os parentes embora antes de requisitar sua presença... mas o mordomo tirou-lhe todas as suas esperanças.

       -Todos o estão esperando para cortar o bolo, senhor.

       Contrariado, foi separado de sua mãe e arrastado de volta a sala. Cheirava a cavalo, mas, aparentemente, todos ali haviam aceitado a desculpa de que ele havia se assustado quando os animais foram soltos e se escondido na casa dos empregados até que tudo se acalmasse. Porque afinal, os empregados cheiram a cavalo. Idiotas. Nem uma criança de cinco anos acreditaria numa história dessas.        Após a cantoria humilhante e terem feito-o assoprar as velas sobre seu bolo, deixou que os seus primos gordos se saboreassem com o bolo, indo amuado até uma das janelas e sentando-se ao lado. Ouviu a voz da mulher em suas costas.

       -Que belo aniversário, Andrea. Deve estar muito feliz de já estar tão crescido. – sorriu-lhe um sorriso amarelo. Andrea não gostava de seu tom de voz. Manteve-se calado, sem responder. Que ela falasse sozinha. – Pois bem. Depois, seu pai tem algumas palavras a lhe dar... aposto que vai gostar da notícia.

       Andrea virou-se para ela, de cenho fechado.

       -Não quero conversar com você.

       -Não seja mal educado. Aposto que sua mãe não o educou direito.

       Puxou o ar com força, com o rosto vermelho. Se ela queria ofender sua mãe, ele ia ofendê-la da mesma forma que ela fazia.

       -Puta.

       Um rubor subiu pelo pescoço da mulher.

       -O que disse?

       -Puta. É assim que você chama ela, então posso te chamar. – Já que sabe educar os outros tão bem. – Aprendi certo?

       Seu rosto se contorceu de ódio... mas tudo o que ela poderia fazer, frente a tanta gente, era controlar-se. Estufou o peito em uma vã demonstração de orgulho, e sorriu-lhe como se lhe dissesse ‘seu pai saberá disso assim que essa festinha acabar’. Andrea franziu-lhe o cenho em resposta e voltou a ignorá-la, observando o sol se pôr do lado de fora.

       E como prometido, não demorou que seu pai soubesse. Pegou-o pelo braço quando ele tentara escapar ao partir do último convidado, arrastou-o escada acima e fechou-se com ele em seu escritório, mantendo as feições inalteradas. Deixou-o de pé frente a mesa, se sentou-se em sua poltrona por trás dela. Juntando as pontas dos dedos perto do rosto, encarou Andrea com os olhos amarelados, o único traço de seu pai que Andrea havia herdado.

       -Alessia disse que você a ofendeu.

        Andrea fechou a cara, irritado.

       -Ela chama a minha mãe assim.

       -O que você acha que sua mãe é, Andrea?

       -Ela... – Andrea engoliu seco. Como ele pode?

       -Onde você acha que ela vai todas as noites?

       -Por que não a deixa ficar?

       Seu pai suspirou tão suavemente que Andrea mal pôde ouvi-lo.

       -Sua mãe é uma prostituta. Fica por perto por sua causa, Andrea. Ela não é minha esposa, mas você ainda é do meu sangue.

        -E por que ela não é sua esposa?

        -Porque é uma prostituta. Alessia é minha esposa.

       -Não deveria. Minha mãe chegou antes, eu sei.

        -Sua mãe nunca foi candidata a nada. Uma brincadeira de juventude que resultou em você. – Andrea mordeu o lábio. Uma brincadeira de juventude...

       -Se eu sou uma brincadeira, não tenho que ficar aqui.

       -Você vai ficar. E acho bom aprender a tratar sua Madrasta direito. – ele levantou-se e arrumou o terno, mesmo que continuasse impecável. Foi até Andrea, que desviou-se de sua mão sobre seu ombro o melhor que pode, de expressão fechada. Morria de raiva. – Você logo irá ganhar um irmãozinho, e acho bom que aprenda a dar o exemplo.


***




Doll information:
Headmold: Volks SD17 Hikaru Genji
Body Type: Volks SD17 Hijikata Toshizou Boy Body
Skin Type: Normal Skin
Make up por: Shiroi
Data de chegada: 04 de Fevereiro de 2011





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