DAMARAN LEONTYEV


Nome Completo: Damaran Leontyev
Apelido: Dam, Damya
Nascimento: 10 de Agosto de 1917
Altura: 1,83m
Signo: Leão
Local de nascimento: São Petesburgo, Rússia
Raça: Humano
Sexo: Masculino

Personalidade: Quieto e pouco sociável, Damaran costuma ter dificuldades para conseguir confiar totalmente em alguém ou nutrir uma amizade. Dificilmente inicia conversas ou fala sobre intimidades com pessoas que conhece há pouco tempo, e nunca fora bom em fazer amigos. Seus colegas de exército durante a juventude eram poucos, e em sua maioria aqueles que tiveram a coragem de se aproximar – os outros sendo amigos de colegas que simplesmente se juntariam ao grupo. Sempre fora melhor ouvinte do que falante, e nunca se importara demais com modos ou vaidade, tendo um jeito bronco e um tanto grosseiro. Por vezes se comunica com grunhidos e rosnados quando não tem vontade de dialogar, e sua paciência é curta. No entanto, desde criança aprendeu como se comportar em certas situações para evitar aborrecimentos, agindo impulsiva e instintivamente apenas quando a situação não o limita. Costuma resolver seus problemas mais na base dos punhos do que na da conversa, mais por preguiça mental do que por incapacidade.

Tem mais facilidade de confiar em mulheres do que homens, por sempre ter sido melhor tratado por elas. No entanto, dificilmente leva qualquer pessoa para dentro de sua casa, seu próprio quarto sendo um lugar onde permite apenas a si mesmo a entrar. Bebe (em demasia) e fuma desde a adolescência, por motivos diversos e gosto, mas mantém os vícios evitando prejudicar outros sempre que possível. Uma vez conquistado, é leal e retribui o carinho que é lhe dado.




***

LIXINHO, 3 ANOS

 

        Costumava acordar com o barulho do trem de carga que passava a alguns metros de distância da casa, pelo momento do nascer do sol. Era o momento exato que o maquinista acionava o apito da chaminé, que se combinava com o som do ferro batendo em ferro das rodas e nos trilhos. Quando havia luz do sol o suficiente, ele prontamente se levantava, esfregando os olhos com as mãos, e, com a ajuda de um pequeno banco de madeira, apoiava-se na janela para ver a longa cobra de metal que espalhava fumaça pelo seu caminho. No entanto, durante o inverno, quando as horas de luz eram reduzidas, ele recusava-se a sair de debaixo dos panos velhos que lhe serviam de cobertor – a escuridão o assustava. Ele dormia no canto mais afastado da porta da cozinha daquela casa, pois era onde poderia proteger-se melhor do vento frio que entrava por debaixo da velha porta de madeira. Arrumava alguns panos no chão, para não ter de deitar-se sobre o ladrilho gélido, e procurava aquecer-se com os que sobravam – e, para sua sorte, panos velhos e rasgados eram o que não faltava naquele lugar. Esperava deitado no escuro, até ouvir os primeiros passos nas escadas ou ver algum raio de sol, para não ser pego adormecido. Não era bom se estivesse dormindo quando os donos da casa acordassem – por algum motivo, odiavam vê-lo descansar e, nas manhãs de mau humor, podia até apanhar do patrão da casa.

        Ele tinha apenas três anos. 

        Naquela manhã de inverno, conseguira ficar deitado em seu pequeno casulo até o sol entrar pela janela. Equilibrando-se nas pernas curtas e mantendo um farrapo sobre os ombros, andou até a porta, e com a ajuda do mesmo banquinho conseguiu sair e ir até o poço do lado de fora para lavar o rosto. Jogar água fria em si quando o próprio ar estava abaixo de zero era um processo bastante sofrido; mas também corria o risco de ser maltratado se ficasse sujo demais. Secou-se com o mesmo pano que o aquecia e voltou para a casa, puxando a porta pelo largo vão entre a madeira e o chão para fechá-la, e amontoou seus cobertores no canto. Agora, precisava apenas ficar sentado sem fazer um único som, e não atrapalhar ninguém a menos que alguém lhe mandasse fazer alguma coisa. E foi o que ele fez.
        Alguns minutos se passaram, e ouviu passos pesados descendo a escadaria. Ele sabia de quem eram esses passos. Encolheu-se em seu canto, apertando os olhos na esperança que apenas fosse ignorado. Mas soube que aquilo não ia acontecer naquele dia – soube no momento em que ouviu os passos entrarem na cozinha, acompanhados de um rosnado de raiva e nojo.

        -Lixinho.

       Encolheu-se ainda mais, mas não emitiu um único som. Não ousava responder com um movimento ou uma palavra, muito menos defender-se. Não tinha como defender-se. Não se lembrava de ter sido chamado de qualquer outra coisa; não sabia se sequer possuía um nome. Então, era ‘lixinho’. Um lixinho que nunca havia entendido o que fazia ali, porque aquelas pessoas o mantinham lá, porque era tratado de forma diferente dos outros. Mas sabia que aquela não era a sua família. Eram apenas estranhos, e ele, um lixinho que nunca havia sido tratado de outra forma. Ou, ao menos, que ele pudesse se lembrar.

        Abriu os olhos castanhos e observou o homem abrir uma garrafa de um liquido de cheiro forte e entornando-a garganta abaixo, bebendo até a metade em alguns goles. Era uma cena que se repetia quase todas as manhãs. Ele suspirou pesadamente, enxugando a boca com a manga do casaco, e mais passos podiam ser ouvidos nas escadas. Uma mulher aparentemente da idade daquele homem, sua mulher, entrou na cozinha e dirigiu-se diretamente para uma cesta com alguns pedaços de pão, levando-a a mesa. Ela nem sequer olhou para ele, nem trocou palavras com seu marido – tinha o semblante aborrecido, como se algo não a agradasse. Lixinho já havia concluído que o problema era ele mesmo, e continuava quieto em seu canto até que lhe mandassem fazer algo. Dirigiu o olhar para o chão, enquanto ouvia o casal finalmente conversando em cochichos. Conversavam sobre como a vida andava difícil. Conversavam sobre como todos estavam esperando algo melhor naqueles anos, sobre o que a guerra e a revolução haviam feito com as pessoas, com o governo, com o exército. Aquele homem era parte do exército. As armas na casa e os uniformes surrados deixavam isso claro, assim como algumas visitas que costumavam aparecer de vez em quando e que tinham um prazer estranho em ver o Lixinho sentado entre os panos rasgados, com os cabelos desarrumados e as roupas encardidas.

        E então o assunto mudava repentinamente quando chegava na questão do dinheiro – a mulher perguntava porque mantinham aquela ‘coisa’ na casa, se era apenas um aborrecimento. Porque tinham que alimentá-lo, porque ele ocupava espaço na casa, porque ela tinha que acordar todo dia para vê-lo no canto da cozinha como um animal de estimação que servia para muito pouco. E Lixinho, por sua vez, fingia não ouvir. Tentava não ouvir. Mas às vezes, era inevitável. Apenas insultá-lo diretamente e maltratá-lo não era o suficiente; sempre pareciam precisar conversar sobre isso na sua frente enquanto fingiam que ele não entendia. Ele soltou apenas um suspiro baixinho.

        -Ei.

        Ele levantou a cabeça, pensando que tinha sido ouvido. Seu suspiro poderia resultar em coisas bastante desagradáveis. Mas a mulher a sua frente apenas estendia um balde quase do tamanho de Lixinho.

        -Vai buscar água no poço. E vê se não derruba tudo.

        Ele balançou a cabeça afirmativamente, e, enrolado em seu manto de trapos, pego a alça do balde com as mãos miúdas levantadas até o pescoço. A passos lentos, foi até a porta – e a mulher havia sido gentil o suficiente para abri-la para ele – e saiu, até o poço, debruçando-se sobre a pedra do poço para encher o balde. Essa era a parte fácil; no entanto, ao tentar levantar o balde cheio d’água, acabou caindo para trás com o peso e derrubando tudo não apenas sobre a neve, mas sobre seu rosto e os cabelos cinzentos. Apertou os olhos, abraçado ao balde, soltando um choramingo baixinho. Devagar, levantou-se novamente para uma segunda tentativa – e, ao olhar sobre o ombro jurou ver aquele homem sorrindo de maneira maliciosa, como se a falha e o sofrimento de Lixinho o divertisse. Sentiu-se humilhado – mas isso não era novidade alguma. Quando estava pronto para tentar levantar o balde cheio mais uma vez, ouviu uma voz atrás de si. Aquela voz que conseguia confortá-lo mesmo em sua situação, aquela voz que era gentil com ele, que não o humilhava.

        -Eu ajudo!

        A voz aproximou-se por trás e segurou o balde pela alça, ajudando-o a levantar. O pequenino levantou o olhar para uma garota mais velha que ele, em seus oito anos, com cabelos castanhos lisos e desarrumados e o rosto sardento. Ela sorriu pra ele, segurando o balde com os bracinhos finos, mas ainda com mais força que os dele, e ajudou-o a levar para casa não obstante o olhar de desaprovação do homem. Ela não ligava.

        Aquela garota era a única que não tratava Lixinho mal naquela casa. Era a única que o ajudava, e, de vez em quando, lhe deixava usar fogo para aquecer a água ou lhe dava uma fatia de pão a mais para comer; ou ainda, que lhe emprestava um cobertor mais quente nas piores noites de inverno quando neve entrava pela fresta da porta. E era a única de quem ele gostava. Juntos, conseguiram entrar com o balde cheio, e colocá-lo frente a mulher. Ela olhou-os de maneira fria e, com um suspiro raivoso, pegou o balde e colocou a água numa panela, para esquentar. Mais uma vez, a garota sorriu para Lixinho e colocou a mão sobre sua cabeçinha, afagando-lhe a cheia cabeleira cinzenta.
        -Irina. – disse a severa voz do homem, aproximando-se da garota. – O que foi que nós lhe falamos sobre se aproximar dessa coisa...?

        A garota encolheu os ombros, recolhendo a mão, olhando para baixo. Lixinho recolheu-se ao seu canto, cabisbaixo.

        -Ele é tão pequeno, pai... não deviam mandar ele fazer essas coisas...

        -Você não vai me dizer o que eu deveria ou não fazer. Vá lavar essa mão, esse lixo está imundo...

        -... Ele não é um lixo...

        Nesse momento, Lixinho levantou a cabeça, sentindo uma pontinha de felicidade. Que não durou muito. O homem agarrou o braço da filha, apertando-o, e rangeu os dentes.

        -Não me contrarie. Eu mandei você lavar as mãos.

        Apertando os olhos, ela apenas concordou com a cabeça, desvencilhando-se e saindo até o poço. A mulher não falou uma palavra. Lixinho, muito menos. E, assim que a garota virou as costas, o homem seguiu em sua direção e golpeou-o no rosto com a ponta da bota – não queria tocar em Lixinho antes do café da manhã.

        -Não vai ficar mal-acostumado.

        O pequeno nada respondeu. Seu rosto doía. Doía muito. Segurando os soluços na garganta e as lágrimas nos olhos, ele fez que sim para o homem e encolheu-se entre seus panos, escondendo o rosto. Mantinha a pequena mão sobre onde o golpe o havia atingido, esfregando de leve, esperando que a dor passasse. Enxugava as lágrimas nos panos sujos, junto do nariz. Soluçava baixo, abafando nos panos, e abria a boca para chorar. Mas não poderia fazer som algum. Era um choro silencioso, que ninguém deveria ouvir. Ele devia, sempre, chorar sozinho, e nunca ser confortado.

        Quando Irina entrou novamente, seu pai a puxou diretamente para a mesa, sem deixar que ela se aproximasse do pequeno. Ele podia, de vez em quando, sentir o olhar dela sobre si. Mas não iria levantar a cabeça até que as lágrimas parassem. Ele sabia que, como toda a manhã, Irina iria esconder um pedaço de pão em seu vestido e assim que ficasse sozinha na cozinha, deixá-lo-ia ao seu lado; ele sabia que teria de fazer mais alguma coisa impossível no decorrer do dia, e provavelmente apanharia de novo. E continuaria quieto, até Irina dar-lhe algo mais para comer quando escurecesse. Mas a sua maior certeza era que não haveria quem pudesse confortá-lo quando chorasse, quando sentisse dor, não enquanto aquele homem estivesse ali.

        Ele devia sempre chorar sozinho.

***

LIXINHO, 4 ANOS


        Aquela seria a última vez em sua vida que ousaria fazer aquilo. Algumas vezes, a mulher da casa o mandava ao mercado com algumas moedas para que ele levasse a comida para a casa e ela fizesse a refeição para o marido e a filha. Como dificilmente sobrava comida suficiente para ele, resolvera pegar um pouco da sacola antes de chegar na casa para se alimentar – mas a mulher notava que havia algo faltando, e prontamente chamava o esposo ou ela mesma tratava de dar a ele a punição que merecia. Como sempre, não o tocavam com as mãos nuas – davam-lhe chutes em seu estômago até que colocasse para fora o que havia roubado. E não levava muito – após os três primeiros, Lixinho não agüentava e vomitava o que havia e o que não havia comido.  Abraçando a própria barriga e segurando o choro, ouvia a mulher exclamar em repulsa, berrando que ele iria limpar aquilo nem que tivesse de usar as próprias roupas em trapos. Levava algum tempo para ele conseguir levantar-se e fazer o que lhe era mandado, mas as ameaças sempre serviam como uma terrível forma de incentivo. Felizmente, desta vez não seria algo demorado – fora aos poucos diminuindo a quantidade de comida que roubava, então o estrago não havia sido tanto. E ao menos, havia uma vantagem – seu estômago doeria por, ao menos, uns dois dias – e seriam dois dias durante os quais não iria sentir tanta fome.

        O cheiro que vinha do fogão, no entanto, era a parte mais difícil de agüentar. Não era um banquete e a comida não era especialmente apetitosa... mas era o que ele conhecia, e era o que ele desejava. Sempre guardava dentro de si a pequena esperança de, algum dia, ganhar um pouco daquilo que a família comia, por mais que soubesse o quão impossível seria. Ficava com os restos: partes sem gosto de repolhos e alfaces, a parte de dentro de um tomate, uma tigela de sopa rala, e quando tinha sorte, um pouco de carne queimada. Graças a isso, era a criança mais magra da vila, por mais miserável que o lugar fosse... e sobrevivia apenas graças à ajuda de Irina e, talvez, uma grande força de vontade que não sabia ao certo de onde vinha.

        Não era todos os dias; ela apenas conseguia dar-lhe comida escondido algumas vezes pela semana, quando a mãe saia por algum motivo, ou enquanto dormia. Pegava algo que sabia que não faria falta, ou vezes ela mesma trabalhava para alguém na cidade e guardava algumas moedas para alimentar-lhe. Ela sempre lhe havia dito que era um garoto forte. Vivia terrivelmente, agüentava o intenso frio do inverno, conseguia passar tempos sem comer e não podia chamar a água que jogavam nele de banho... mas ainda assim, ele resistia. Mesmo quando apanhava, resistia e os machucados, apesar de deixarem marcas, não causavam nada mais sério do que deveriam. Talvez fosse isso que frustrasse tanto o dono da casa. Talvez ele tivesse uma esperança de que se Lixinho morresse de uma vez e não precisasse mais mantê-lo ali. Mas ele parecia apreciar tanto poder espancar-lhe sem que o garoto pudesse reagir... Lixinho nunca havia tentado entender. Mas era o que ele conhecia.

        Engatinhou com a barriga dolorida até seu canto em meio a seus trapos, e ali ficou. Tinha que pensar em outras coisas até a dor ir embora. Mas não sabia bem no que pensar. Talvez no trem que via pela janela, talvez na comida que Irina poderia lhe dar uma próxima vez. Talvez, em um dia, conhecer algo diferente daquilo. Não se lembrava bem se já havia sido diferente.

        Talvez sim. Suas primeiras memórias eram vermelho, negro, vermelho e sua cama de trapos na cozinha. Naquela época, a cama de trapos era mais limpa, lembrava-se. No entanto, não sabia ao certo o que pensar das mais antigas. Eram apenas cores. Cores, impressões, e um forte cheiro de ferro e de fumaça.

***


LIXINHO, 5 ANOS

       Naquele dia, haviam mandado-o buscar comida no mercado da cidadela. O dinheiro era contado pela mulher; se faltasse qualquer coisa, ele sabia muito bem que iria sentir muita dor. Portanto, por maior que fosse a tentação, não ousava sequer tocar em um pedaço de alface, em uma única batata, ou em uma migalha de pão. Talvez, se fizesse as coisas direito, poderia sonhar em ser melhor tratado; talvez ganhasse um pouco daquela comida. Era algo que nunca havia acontecido uma vez sequer; mas a esperança é a última a se esvair.

        As estações quentes haviam se passado, e as árvores estavam mais uma vez reduzidas a galhos secos que se estendiam pelo céu cinzento. As primeiras levas de neve foram suficientes para que o pequeno andasse com dificuldade, medindo os passinhos que afundavam naquele oceano branco. Quando chegou na estrada que atravessava a ponte não precisava mais lutar contra a neve – mas devia tomar cuidado para não escorregar no lamaçal que a cobria. Mantinha-se próximo a mureta, andando lentamente entre o branco e o marrom, rezando para que nenhum veículo ou cavalo passasse ao seu lado e enchesse uma das suas únicas roupas de lama; mas algo logo desviou sua atenção.

        Ouviu o suave galopar de um cavalo sobre a neve, e virou o rosto para ver o animal. Sobre ele, um cavaleiro bastante comum e de semblante abatido trajava um casaco surrado e, em suas costas, lenha e alimentos. Devia estar fazendo a mesma coisa que ele, pensou Lixinho; mas ser um adulto e ter a ajuda de um cavalo faziam o trabalho parecer menos sofrível.

        Ou foi o que ele pensou por aquele breve instante.

        No pequeno intervalo de tempo que o cavaleiro passou pela ponte sem atravessá-la, um grupo de quatro garotos maltrapilhos, mais velhos de Lixinho, pularam sobre o homem e sua montaria vindos de debaixo da ponte, fazendo com que o animal empinasse e derrubasse o pobre cavaleiro ao chão. Dois dos garotos, armados com facas, seguraram as rédeas do cavalo e cravaram-lhe as lâminas no peito, derrubando-o. Um outro garoto, o menor de todos, ocupava-se em recolher a comida do cesto do homem; e o último, um magrelo de uns doze anos, apontava um rifle velho para evitar que o cavaleiro fizesse qualquer coisa. E ele não ousava fazê-lo – não apenas pela ameaça do rifle do garoto, mas Lixinho achava que a queda o havia machucado bastante. Após olhar para o cavaleiro durante alguns instantes, o relinchar sofrido do cavalo chamou sua atenção – os dois garotos que o haviam derrubado cortavam sua carne impiedosamente, enquanto o animal ainda vivia, e enfiavam nacos em bolsas de couro sem se importar com o sangue escorrendo. Pressionavam a carne para fazer caber o máximo possível, sujando suas mãos e roupas, enquanto o garoto mais jovem corria com o que conseguira carregar. O cavalo já havia dado seu último suspiro de vida, e seu sangue tingia a neve branca de vermelho vivo. Quando as bolsas estavam cheias e seus braços ocupados com pedaços grandes de carne, os dois outros seguiram os passos do menor, gritando para o garoto com o rifle que, mantendo o olhar no cavaleiro, os acompanhou, deixando o pobre homem ao chão.

        Lixinho acompanhou os garotos com o olhar – felizmente, eles não pareciam tê-lo notado. Quando os quatro desapareceram no horizonte, o pequenino virou sua atenção novamente para o cadáver do cavalo e seu cavaleiro, que ainda não se levantava. Mordeu o lábio, receoso, e foi vagarosamente até os dois. Colocou-se primeiro do lado do homem, sem soltar o pacote com a comida de seu patrão; podia ver seus olhos vidrados, e seu corpo não se movia em absoluto. Chegou mais perto com o rosto, e viu que de sua boca não mais saía o vapor quente que, em dias gelados como aquele, tornava-se uma leve e sublime névoa. A queda o havia matado; mas Lixinho não tinha a menor idéia de tal. Ele sabia apenas que o homem não mais se movia.

        Em seguida, aproximou-se do cavalo, deixando seu pacote na neve branca. Ergueu a mão e colocou-a sobre a carcaça, ainda sentindo o calor do corpo do animal. Suspirou profundamente, tomando coragem, e puxou a pele por um dos cortes feitos pelos garotos, colocando as mãos na carne e sentindo o calor. Era carne, pensou ele. Era carne, ali, ao seu alcance, e cujo dono não se movia para impedi-lo. Não era carne do seu patrão; o dinheiro que lhe haviam dado para levar o pacote não era para aquela carne. Ele não levaria bronca nem apanharia... se comesse aquela carne.

        Debruçou-se sobre o cadáver, mas não tinha nenhuma faca para cortá-lo. O cheiro forte de sangue encheu suas narinas, fazendo-o franzir o cenho e arrepiar-se. Fechou os olhos e respirou fundo, sabendo que aquela seria sua única opção, e cravou os dentes com o máximo de força que conseguiu. O gosto da carne crua lhe deu ânsia. A carne dura e crua do cavalo, que ele tanto se esforçava para cortar com os dentinhos de uma criança de quatro anos, possuía um gosto estranhamente doce e desagradável; a gordura oleosa tinha uma consistência repugnante, como uma espuma gosmenta e enjoativa; o sangue quente com sabor de ferro escorrendo entre seus dentes e pela sua garganta começavam a fazer suas entranhas se revirarem. Mas a vontade de preencher o estômago era maior. Puxando nacos de carne com os dentes, mastigava como conseguia e engolia cada pedaço com esforço, até finalmente sentir-se cheio. Suspirou, saindo de cima do cavalo, com o rosto coberto de sangue quente e rubro; olhou suas roupas e percebeu que graças a pele, não havia se sujado em demasia. Limpou as pequeninas mãos na neve, esfregando-as, e depois o rosto. Quando sentiu-se limpo o suficiente, voltou até seu pacote e seguiu seu caminho até a ponte, olhando o cavaleiro morto sobre o ombro. Ele ainda não havia se movido, pensou. Havia deixado que ele comesse a carne de seu cavalo sem bater-lhe ou repreender-lhe. E, durante o caminho de volta, Lixinho sentiu-se culpado por ter comido do cavalo de uma pessoa tão boa.




***


Doll information:
Headmold: Volks SD17 Scarface Reisner
Body Type: Volks SDGou Yukinojo Sawaragi Boy body
Skin Type: Normal Skin
Make up por: Volks (default) / BloodyCrow
Data de chegada: 29 de Julho de 2009 / 30 de Abril de 2011.





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